Retorno ao Vale (1905-1910)

1905 – Monteiro Lobato volta para Taubaté. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 119)

Em janeiro de 1905, assina artigos de crítica de arte no Jornal de Taubaté.

“Mas Monteiro Lobato sente-se como exilado. Acabara de sair da libérrima vida estudantil de São Paulo e aquilo parecia-lhe sonolenta aldeia”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 120)

“As cartas a Godofredo Rangel são fartas nesse período, e quando não está preocupado com a leitura de algum novo autor, enche-as de comentários ferinos a propósito da vidinha besta que está sendo forçado a levar. Seu estado de espírito oscila entre a euforia e o desalento. Eufórico quando as belas do lugar lançam-lhes olhares apaixonados. Desalentado quando, quase à força, é metido no corpo de jurados (…)

Nessas idas e vindas, é assaltado, às vezes, pôr incontrolável desespero. Sente que está se ‘burrificando’ com o ar dessa coisa chamada ‘interior’, capaz de arrasar qualquer criatura em poucos meses. As ideias chegam-lhe lorpas, e já não são mais aquelas ideias brilhantes e audaciosas dos tempos do ‘Cenáculo’, das tardes do ‘Minarete’, das noitadas no ‘Café Guarani’. São ideias que trazem carimbo local, ideias de boticário de roça, e que só servem para enferrujar-lhe o cérebro.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 122)

1906 – O “ano novo lhe traz, a princípio, os mesmos dissabores, o mesmo desânimo. O diagnóstico é fácil – instabilidade, vida no ar. Saudades do ‘Cenáculo’, sequioso como diz em carta a Tito, ‘pelo recomeçar daquelas intermináveis palestras ao ar livre, das mútuas confidências de ambulatórias pelo viaduto’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 123)

Em março, chega à cidade a jovem Maria Pureza Natividade, que viera da capital passar uma temporada em casa do avô, o velho Dr. Quirino. Lobato apaixona-se e começa a namorar a jovem. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 124)

Monteiro Lobato “cai na poesia, e entre março, abril e maio publica no “Jornal de Taubaté” uma série de poemas, tendo como tema e assunto a beldade que o coração, sobrepondo-se à fria lógica dos raciocínios, escolhera.”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 124)

Tradução dos livros “O Anti-Cristo” e “O Crepúsculo dos Ídolos” de Nietzsche. Estas traduções estão no arquivo da família e Lobato não as publicou, pois considerava feito “só para o meu prazer” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.2, pp: 533 e 729)

1907 – Em maio, Monteiro Lobato chega a Areias, a fim de assumir o cargo de Promotor Público da Comarca, e, em abril, fica noivo à revelia do avô. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 128)

“Lobato tem de contentar-se com a sua nomeação para Areias (…), onde escorre uma vida morna de cidadezinha qualquer”, servindo-lhe como modelo para Oblivium, Itaoca e “todas as cidades mortas cuja imagem percorre os contos do escritor”. (Marisa Lajolo. A Modernidade do Contra. São Paulo, Brasiliense, 1985. p: 22)

No “ócio de um promotor público solteiro em Areias”, Lobato dedica-se à pintura de aquarelas e em escrever “muitos dos contos posteriormente publicados em revistas e mais tarde enfaixados em Urupês”. (Marisa Lajolo. A Modernidade do Contra. São Paulo, Brasiliense, 1985. p: 23)

Procura distrações nos arredores. “Não havia muito o que escolher, mas uma caçada na Serra da Bocaina, ou uma pescaria acompanhado de Fídias, o Delegado, tem os seus encantos, ajuda a matar o tempo.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 137)

Vida Intelectual: “O serviço era pouco, praticamente nenhum. Como encher as longas horas do dia e da noite? Só havia uma saída – a leitura. ‘Encho os dias lendo, leio para me embriagar, como o bêbado bebe para esquecer. Desde que cheguei já devorei perto de 1500 páginas in 8º. E se não fizesse isso morreria de desespero’. Ou então: ‘Estou a ler Homero na Odisseia. Vingo-me da chateza da vida areense passando o dia em plena Hélade, com Ulisses e Penélope. Que grande coisa a literatura! Sem ela a minha vida aqui conduziria irremediavelmente ao suicídio’. Nesse lugar, continua nas longas, apaixonadas e pitorescas cartas à noiva, ‘só casado’.”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 133-134)

“Não se entrega, no entanto, passivamente, à opressão do ambiente, e procura distrações, inclusive tentando advogar. Consegue uma causa, a primeira e única que se tem notícia de suas atividades como bacharel em Ciências Jurídicas. Nada sensacional; em Areias já não sucediam coisas extraordinárias.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 135)

“Descobre, nessa época, Kipling, e têm dele brutal inveja: ‘Que felizes os homens que podem escrever uma novela europeia, outra americana, outra indiana, outra esquimó – haurindo as tintas em observações de primeira mão, feitas nesses meios tão variados’. O contraste, para ele, é bem chocante: e é pensando em Kipling e nas suas longas andanças pelos quatro cantos do mundo, que comenta para Rangel, também vegetando num lugarejo sem importância, do interior de Minas: ‘Nós somos os inversos. Nossas capacidades embotam na mesquinhez da introspecção e na sordidez tacanha de meiozinhos roceiros e pífios onde não há caracteres fortes e sintéticos que o romance requer para não degenerar em teatrinho de João Minhoca’. Ali, daquela Areias onde a meses apodrece, está convencido de que nem Shakespeare tiraria sequer um título de drama. Para Lobato, é errado supor que um artista possa criar independentemente do meio. Para ele, ‘meio pífio – obra de arte pífia’. O romance que sonhara escrever nos ócios areenses gorou, não tem ânimo sequer para tentá-lo. Em compensação encontra Dostoiewsky, e ‘Crime e Castigo’ o deslumbra.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 138-139)

Lobato começa a aprofundar-se no Inglês e “dá início, também, às anotações sobre a vidinha de Areias, a princípio pensando num romance simples e emotivo. Mas não consegue concretizá-lo.”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 140)

Sentimento: “Estropiado e empoeirado, o jovem Promotor aportou em Areias, e logo ao primeiro contato com a cidade teve um choque, misto de perplexidade e de assombro: ‘Areias, Rangel! Isto dá um livro à Euclides. Areias tipo de ex-cidade, de majestade decaída. A população de Areias de hoje, vive do que Areias foi. Fogem da anemia do presente por meio duma eterna imersão no passado’. O desalento é maior nas cartas que escreve à noiva. O lugar é muito pior do que pensara; felizmente ali estava por pouquíssimo tempo.”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 131)

“Anda muito inquieto, sentindo que lhe falta alguma coisa. Sabe que para combater tal inquietação, instabilidade e desassossego só há uma solução: o casamento. ‘Nunca senti tão imperiosa a necessidade de já estar casado, como neste últimos dias…’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 140)

1908 – “A 28 de Março de 1908, contando 26 anos de idade, ligou-se Monteiro Lobato a Maria Pureza de Natividade. Embora anticatólico, casou no civil e no religioso (…)

O Casal foi ‘luademelar’ em Santos. Um belo dia, quando tomavam banho e brincavam nas ondas ‘como dois peixes nupciais’, pisaram num molusco venenosíssimo, sentiram logo uma moleza, e em seguida sobre veio uma quentura nas solas dos pés tanto do marido quanto da mulher. Depois um comichão contínuo, uma infecção, e ei-los recolhidos ao leito, pés em posição horizontal, incapazes de locomoção por todo um longo mês.

Só em Junho aportam em Areias, para ali permanecerem por mais dois anos, um casal solitário, que não frequenta as famílias locais nem é por elas visitado.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 141-142)

Lobato “para encher os dias de ócio, trabalha em carpinteiragem, fazendo móveis, coisas da casa, toscas, mas bonitas. Os dedos andam calejados e por longas temporadas perde o gosto pela leitura e pela escrita.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 142)

“No fim de 1908 descobre pequena fonte de renda: assinara o ‘Weekley Times’, e quando encontrava nele alguma coisa interessante, traduzia e enviava para o ‘Estado de São Paulo’, que lhe pagava 10 mil réis por colaboração. Em dezembro ganha 80 mil réis com essa dissertação.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 143)

1909 – Em março, nasce sua primeira filha. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 143)

Na vida monótona de Areias, Lobato continua escrevendo para a imprensa, “enviando de Areias matérias e charges para diferentes jornais e revistas”. Para Lajolo, uma carta ao cunhado de 1909 já expressa “indícios de uma consciência profissional incipiente”, onde Lobato parece “admitir que o texto escrito é também mercadoria”, aceitando “escrever por encomenda”. Para Lajolo, “trata-se de uma manifestação de pragmatismo” ainda tênue que, todavia, se fortalecerá no futuro. (Marisa Lajolo. p: 24)

“É deste período a paciente leitura de Aulete, do contato mais íntimo com Machado de Assis, e das leituras de Camilo Castelo Branco.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 144)

Colabora para o jornal santista, como também para a “Gazeta de Notícias” do Rio; e remete desenhos e caricaturas que o “Fon-Fon” do Rio publica. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 144)

“Anda preocupado em ganhar dinheiro, economizar dinheiro, juntar dinheiro. O ordenado em areias é de 300 mil réis, dá para viver com decência, mas não para enriquecer. (…) Tem muitos planos: ir para Oeste, fundar uma revista, espécie de ‘Le Rire’, escrever um livro coletando mentiras de caçadores. Ideias não faltam, não lhe faltarão jamais, mas enquanto não se fixa em nenhuma é tomado de inquietação, e agora que a filha nascera, sente que precisa tomar outro rumo. Sabe que a literatura pouco deverá esperar; só uns minguados e esporádicos níqueis. Mas a vocação é muito forte, e em Maio (…) anda às voltas com o ‘Bocatorta’, que passa a considerar o seu conto número um. Cogita de repassar as narrativas do ‘Minarete’, praticamente inéditas. Ao enviar o ‘Bocatorta’ para Rangel opinar sobre ele, está entusiasmado, julga ter enfim realizado um bom trabalho. Mas ao recebê-lo de volta, que decepção! ‘O meu conta agora… Que tristeza Rangel! Reli-o depois que chegou e achei-o tão seco, tão magro…” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 143)

1910 – Em maio, nasce seu segundo filho: Edgar. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 145)

O “ano finda com ele ainda Promotor Público, pai de dois filhos, e com uma sensação de frustração impossível de sopitar. Chega mesmo a escrever: ‘Hoje, que positivamente já falhei, nem mais me acodem os sonhos de outrora’. Os sonhos a que se refere são os de ordem literária, tanto assim que pensa em desistir da literatura para cuidar de algo científico – uma gramática, histórica e filosófica, ou então um vocabulário brasileiro. Mas tudo muito vago, muito sem consistência; Monteiro Lobato quer ganhar dinheiro, quer sair de Areias, a Promotoria causa-lhe engulhos. Ainda inquieto, desalentado. Desse estado de espírito vem tirá-lo trágica e inesperada notícia: seu avô, o Visconde de Tremembé, vítima de uma ruptura do aneurisma, acaba de falecer em Taubaté.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 146)

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abr. 18 2013 Staff Categoria: Efemérides

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