Primeiras letras (1882-1904)

Em 18/04/1882, nasce, “em Taubaté, na então província de São Paulo. Monteiro Lobato era filho de uma tradicional família de plantadores de café do já então decadente Vale do Paraíba.” (André Luiz Vieira de Campos. A República do Picapau Amarelo: Uma Leitura de Monteiro Lobato. São Paulo, Martins Fontes, 1986. p: 3)

Em 07/05/1882, é batizado na paróquia local com o nome de José Renato Monteiro Lobato.

1886 – Aprende as primeiras letras com a sua mãe Dona Olympia. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato, Vida e Obra. Vol. 1.)

1887 – “A mais antiga lembrança de menino está ligada à natureza e remonta aos cinco anos de idade: da varanda da casa grande, por cima do parapeito, ele descortinava, diariamente, os terreiros de café, cercados pelo muro de taipa que num quadrado fechava o recinto daquele castelo. O portão abria-se para a estrada das Sete Voltas, que demandava Taubaté. Depois da estrada, o terreno descia íngreme até o ribeirão. Transposto este, começava outro morro. Um morro coberto de escura mata virgem. Da varanda, o pequeno olhava a floresta como um fantástico ninho de onças e de índios. Evaristo, seu pajem, lhe contara que lá existiam selvagens, homens nus, de tanga, de penas, armados de arco e flechas, que comiam gente. Juca [Monteiro Lobato] olhava para o morro e sentia-se tomado de um pavor medonho, causador de agitadas noites de insônia. Mas um dia, seu pai convidou-o para acompanhá-lo numa caçada de jacus. Lá seguiu, atrás dele, feito uma sombrinha, realizando, assim, a sua primeira grande aventura romântica(…) O sombrio da mata, aquele frescor úmido, os troncos musguentos que lhe pareciam gigantescos, a cipoama enredada, o silêncio, tudo isso foi deixando Juca naquele estado de espírito com que fixaria, muitos anos depois, o Pedrinho, quando, às escondidas de Dona Benta, penetrou pela primeira vez no capão de mato do Tucano Amarelo, onde havia até onças.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 18-19)

“Juca era menino quieto, pouco arteiro. Ester e Judite, suas irmãs mais novas, eram as companheiras de folguedos. Em que consistiam eles? Naqueles tempos, nas fazendas, as crianças costumavam brincar com bonecos de sabugo. Tomavam sabugos de milho e os vestiam como se fossem bonecas. Ou então xuxus, aos quais punham pernas de palitos, e assim eles ficavam sendo os ‘cavalos’, os ‘porquinhos’… As crianças, anotou o próprio Lobato, ‘desadoram os brinquedos que dizem tudo, preferindo os toscos onde a imaginação colabore. Entre um polichinelo e um sabugo, acabam conservando o sabugo. É que este ora é um homem, ora uma mulher, ora é carro, ora é boi – e o polichinelo é sempre um raio de polichinelo’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 19)

“Como todos os demais fazendeiros seus pais possuíam residência na cidade, e ali permaneciam boa parte do ano. A casa da cidade ocupava tôda uma quadra: separada de um lado pelos trilhos da Central, dava frente para o Jardim Público, no Largo da Estação, um dos poucos lugares que lhe permitiam ir sem acompanhantes. E o largo era, algumas vezes, escolhido para nele armarem os circos que, espaçadamente, chegavam a Taubaté (…)

Comovido, diante de um circo, o adulto Lobato relembra com emoção a chegada e permanência dele na cidadezinha: ‘Lá estava ela, a clássica barraca, iluminada por dentro e deixando ver desenhados no pano os vultos dos espectadores dos bancos de cima. Em redor os tabuleiros enfeitados com lanterninhas dúbias e mulheres acocoradas ao pé, vendendo baús de pastéis, cestas de amendoim torrado, balaios de pinhão cozido, e a saparia que espia de fora porque não tem o dez tostão da entrada. Pelas ruas deslizavam famílias em caminho do circo. Deslizavam umas sombras diáfanas, à luz baça, misturada de luar e gás. As negras passavam tagarelando, ruflando saias engomadas. Iam depressa, num açodamento ingênuo, sequiosas das graças do palhaço’.

Recorda, então, os tempos em que também sentia essa sofreguidão nas noites magníficas em que o pai anunciava na mesa: ‘Hoje vamos aos cavalinhos’. Duas horas antes, já estavam prontos; ele de fatiota preta, boné a marinheiro e bengalinha de junco. Revê-se nitidamente, sentadinho na terceira tábua da arquibancada, a lançar olhadelas gulosas para a última, rente ao pano, lá onde se repimpavam os moleques, lá onde gostaria de ficar, se o pai deixasse. Era sempre ali, tão baixo, tão perto do chão… Tocava a sineta. A molecada pedia o palhaço (…): ‘Eu não podia ver o palhaço que não risse a ponto de incomodar os vizinhos. A cara pintada, os modos, a roupa, tudo era imensamente engraçado’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 20-21)

1888 – “Desse tempo uma das cenas de que guardou viva memória, foi a da última visita de Pedro II à Província de São Paulo, quando o Imperador se hospedou na casa do avô (…) A Figura patriarcal de Pedro II, o cerimonial, nada disso o impressionara tanto quanto a falinha fina da imponente figura.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol. 1., p: 23)

1889 – “É desse tempo a primeira resolução séria tomada por José Renato Monteiro Lobato: seu pai possuía uma bengala que o encantava: um unicórnio cor de âmbar, com castão de ouro granulado. Bem em cima, no topo do castão, numa parte lisa do metal, estavam gravadas as seguintes iniciais: J.B.M.L. Essas iniciais estragavam todos os seus planos. Afinal, pensava o pequeno Juca, quando meu pai morrer não poderei usar essa bengala ‘Eu me chamo José Renato; as iniciais são J. B.; esse diabo do B…’ E por causa da bengala do José Renato Monteiro Lobato resolveu mudar o nome. Passou a chamar-se, para todos os efeitos, José Bento Monteiro Lobato.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 26)

“Está com sete anos quando L. Kenedy abre em Taubaté Novo Colégio. Juca foi um dos primeiros matriculados. Era um excelente Colégio, mas por questões econômicas não se manteve, fechando poucos meses depois. Keneddy foi em breve substituído por Miss Stafford, senhora irlandesa, radicada na cidade. Fundou ela uma escola mista – ‘Colégio Americano’ – que também não durou muito tempo, apesar dos novos métodos de ensino e do excelente corpo de professores. Ao ‘Americano’, sucedeu o ‘Colégio Paulista’, do positivista Josino Mostardeiro. Fechando-se também este, Lobato foi para o ‘São João Evangelista’ dirigido por Antônio Quirino de Souza e Castro. Nessas escolas fez os estudos primários e parte dos preparatórios, até a transferência para São Paulo, onde, no ‘Instituto Ciências e Letras’, concluiu o estudo das matérias indispensáveis à matrícula no curso superior.”

“Aliás, seus divertimentos preferidos inclinavam-se, cada vez mais, para o garatujar incessante e o incessante debruçar-se sobre os poucos livros que lhe caiam nas mãos. Não havia muitos volumes para crianças naquele tempo. Ele conseguira reunir uns poucos, que lia e relia: três obras de Laemmert, adaptadas por Jansen Muller, e dois álbuns de cenas coloridas – ‘O Menino Verde’ e o ‘João Felpudo’. Havia ainda o ‘Robinson’ resumido e certo livro de narrativas ingênuas intitulado ‘Dez Contos’, incansavelmente lidos e relidos. Esse último, ele o perdeu no Jardim Público, certa tarde.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 26)

“Um quadro que Monteiro Lobato guardava nítida imagem era o dele entre a criançada humilde, crias da casa em geral, e as irmãs, todos a rodearem-no, enquanto folheava as páginas desses livros, mostrando-lhes as figuras e lendo-lhes os dizeres.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 26)

“Dos mestres, o que lhe causou mais viva impressão foi o Dr. Quirino. Muitos anos depois, recorda-o numa página de comovente tributo: ‘Eu era bem criança quando o vi pela primeira vez: um homem alto, de cartola. A cartola impressionou-me profundamente por ser novidade para mim. (…)

E eu corria de onde estivesse, para ‘ver’ a singular estranheza daquele homem alto, desempenado, sempre de preto e de cartola (…) Um dia fui parar em seu Colégio, onde ele era o professor de gramática. O compêndio de Bento José de Oliveira, encadernado em couro… O colégio ficava a uns três quilômetros de minha casa, distância que eu vencia com o Bento José diante dos olhos, procurando decorar a lição, mas sem entender coisa nenhuma. O que mais tarde me fez escrever ‘Emília no País da Gramática’, talvez fosse a lembrança do muito que naquele tempo me martirizou a tal ‘arte de falar e escrever corretamente’. Na aula tínhamos diante de nós o homem misterioso em pessoa, sem cartola, mas sempre duma originalidade tremenda em todos os seus atos. comecei a conhecer o Doutor Quirino, embora na minha infantilidade, não pudesse analisá-lo nem defini-lo e muito menos compreendê-lo’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 23)

1894 – Descobre Júlio Verne aos 12 anos de idade (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 42)

“Recordando a vida colegial, dizia que os mestres tinham contribuído muito pouco para a formação de seu espírito. No entanto, acrescentava, a Júlio Verne devia todo um mundo de coisas. Júlio Verne abrira-lhe as portas da geografia e das ciências físicas e sociais, descerrando-lhe as cortinas do mundo como coisa viva, pitoresca, composta de paisagens e dramas. De posse dessa visão, e esporeada pela imaginativa, a inteligência ‘compreendeu e quis saber’. ‘Que menino, perguntava ele, mais tarde, após a leitura de ‘Keraban, o Cabeçudo’ não corre espontaneamente a abrir um atlas para ver onde fica o Bósforo? A inteligência só entra a funcionar com prazer, eficientemente, quando a imaginação lhe segue de guia. A bagagem de Júlio Verne, amontada na memória, faz nascer o desejo do estudo. Suportamos e compreendemos o abstrato só quando existe material concreto na memória’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 42-43)

1895 – Monteiro Lobato dirige-se à Capital Paulista com o intuito de prestar exames para o Instituto de Ciências e Letras. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 35)

“O dinheiro que lhe deram fora pouco, e isso o obriga a economias medonhas: ‘Tenho só um vintém e o dinheiro de Teca que ainda não buli nem bulo. Vou à cidade a pé e por um caminho muito longo que se sobe uma ladeira porque não tenho 3 vinténs para passar no viaduto; mas como é bom aprender a não ser gastador, não pedi nenhum vintém para o Dr. Rodrigo. Tem estudantes aqui que trazem 500$000 e gastam tudo num dia’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 35)

“Neste ano Monteiro Lobato tem o primeiro grande choque de sua vida: é reprovado no exame de Português. Lobato estava convicto de que saíra bem nas provas: “Mamãe, ontem entrei na prova oral de Português e fiz uma boa prova. Todos que viram disseram que eu tinha tirado plenamente, mas quando eu fui ver eu estava inabilitado. Creio que é engano mas se não for eu vou sexta-feira, dia 10. A minha prova escrita foi boa e a oral também. Eu vi na prova escrita uns seis rapazes que não sabiam nada, que me perguntavam tudo, que colavam e que faziam uma descrição de dez linhas, serem aprovados. Na oral vi rapazes que diziam que ‘pouquíssimo’ era advérbio: ‘fortes’ não sabiam o que era, saírem aprovados. E eu que respondi tudo saí inabilitado. Me parece que o Freire viu tanta proteção que disse: este menino não sabe nada, porque se soubesse não precisava empenho e por isso me bombeou injustamente. Tenho vergonha de toda gente, aqui que conheço poucas pessoas, quanto mais aí que todos sabem que vim fazer exames. Todos dizem que há engano, mas isso não é certo. Agora quando chegar aí vou estudar Francês, Português, Inglês, Geografia para fazer em Junho ou faço em Março os dois. Parece que vou morrer, principalmente vendo como a senhora, papai e seu Germano vão ficar tristes. Só de me lembrar saem lágrimas dos olhos. Isso é uma loteria! Se alguém perguntar de mim, diga que não sabe, que morri. Conte só para seu Germano.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 38)

1896 – Passa a maior parte de seu tempo disponível na chácara do avô e “é à sombra da jaqueira que se debruça sobre os compêndios, ou sonha com as primeiras glórias literárias”. (p: 39)

Monteiro Lobato volta ao Colégio Paulista, às aulas de seu Germano, do Dr. Eliseu, à convivência dos colegas e amigos. Passa o ano inteiro grudado nos livros a fim de que vergonha tão grande como aquela não se repita nunca mais. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 39)

“Nessa época, no Colégio Paulista, em Taubaté, os colegas resolveram fundar o clássico jornalzinho estudantil. Este chamava-se ‘O Guarani’, e é nele que José Bento Monteiro Lobato, aos 14 anos de idade, estreará nas letras: um artiguete de poucas linhas, que modestamente intitula de ‘Rabiscando…’, e que mais modestamente ainda subscreve com o pseudônimo de Josbem. Essa crônica e pequenas resenhas do movimento colegial são as primeiras produções de Lobato que se conhecem: não tinha lembrança de nada anterior. Eis a croniqueta:

‘Como sofria de insônia, escrevi a um conhecido médico perguntando qual o melhor narcótico que ele conhecia, ao que me respondeu: “Caro Josbem: Há trinta anos que sou médico e sempre tenho empregado como narcótico o ópio, a codeína e outros. Mas há poucos meses, lendo a Enciclopédia do Riso e da Galhofa, encontrei lá a seguinte anedota: EMENDA PIOR QUE O SONETO – Um escritor escreveu no primeiro capítulo dum seu livro – outras coisas ; na impressão saiu outras coisas; e o editor pôs na Errata ostras coisas. Isto é o que se chama emenda pior que o soneto. Ao acabar de ler essa anedota, um irresistível sono apoderou-se de mim, e quando acordei vi que estava ali um narcótico, mais poderoso que quantos conhece a medicina. Tenho-o empregado com admiráveis resultados em quem sofre de insônia, e é de fácil aplicação, porque basta ler duas ou três vezes. Vou mandar felicitar o Sr. Pafúncino Semicúpio Pechincha, autor de tão maravilhosa descoberta. (assinado) Dr. Mesoj.” Nunca empreguei esse narcótico como manda a fórmula desse médico, porque desde esse dia basta lembrar-me das anedotas do tal Pafúncio para que a insônia fuja espavorida – Josbem’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 40)

“Em dezembro Lobato volta a São Paulo para prestar os exames das matérias que estudara durante o ano em Taubaté. A primeira notícia que manda a mãe é cheia de vivas e pontos de exclamação: ‘Salve! Salve! Viva o meu plenão’. ‘Hoje, grande dia, parece-me que já estou formado! Viva! Viva!!!’ E em letras bem grandes: ‘O MEU PLENAMENTE!’”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 43)

1897 – Passa a viver na capital paulista internado no Instituto de Ciências e Letras. Sua mãe adoecida, já há algum tempo. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p:)

“Que o seu pensamento está quase sempre junto ao da mãe, não padece dúvidas: ‘A senhora não teve nenhum acesso de tosse ou outra coisa no dia 18, às 8 e meia mais ou menos? Tive um pressentimento e para ver se deu certo mando-lhe perguntar’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 48-49)

“No internato a vida era divertida. ‘O Colégio, escreve ele, é bom tanto no corpo docente composto na quase totalidade de lentes, como também a respeito de disciplina, ordem, comida e o mais; a casa é um monumento de grande, porém velha e feia’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 50)

1898 – Morre o pai de Monteiro Lobato vítima de uma congestão pulmonar.

1899 – Morre a mãe de Monteiro Lobato. “Está então com 16 anos de idade, em plena e impaciente adolescência. As irmãs são logo enviadas para o Colégio; ele volta para o Internato. Não mais os dias alegres da ‘Paraíso’. Não mais o ribeirão das animadas pescarias. Não mais, nunca mais, o doce colo materno. Ele e as irmãzinhas são agora órfãos, que o avô recolhe e orienta, e que a avó Anacleta já não poderá visitar como antes. O ‘mundo tinha virado’, e ao tomar o trem de volta para a Capital, José Bento Monteiro Lobato não ignora que a infância já se tornara uma saudade.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 56)

Sentimentos: “Embora não expandisse facilmente os sentimentos que o dominavam, Juca andou por algum tempo sem ânimo para nada. Agora, nas férias, ia para a ‘Buquira’. Mas a solidão da Fazenda só servia para aumentar a angústia e o desespero de não mais contar com a mãezinha para sorver-lhes as dúvidas e aninhá-lo em seu colo. Preferia a cidade; o casarão do avô ficava a poucos quarteirões do Largo da Estação.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 56)

“Tenta fixar os seus pensamentos em tumulto numa espécie de diário: ‘Solidão mental… Sinto-a completamente aqui. O cérebro embolora.’ Só resta a natureza. Abre a janela. ‘Que paisagem! Céu, serra e vale. Céu – gaze de puríssimo azul translúcido. Serra – a Mantiqueira, rude muralha de safira. Vale – o do Paraíba, tapete sem ondulações que lhe enruguem o aplaino. Ao longo do vale singra uma pinta branca, voo de giz e voo da garça em manhã assim! Neve sobre azul!… Súbito… – o bando. Vinham em bando alongado, ora a erguer-se uma, ora a baixar-se outras, estas ganhando a dianteira, aquelas atrasando-se. Passam a quilometro da minha janela, tão nítidas que lhe percebo o flanar das asas. Mas… Outro bando! E outro, atrás! E outro bem longe!… Jamais vi tantas, e em tão formoso quadro. Subiam rio acima. Emigravam. Passavam. Passaram. E deixaram-me com a alma tonta de beleza, e a sonhar mil coisas…’” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p:57)

“Com o que sonha Monteiro Lobato aos dezesseis anos? Ele teve sempre a mania do diário, embora jamais tenha conseguido levar adiante, por muito tempo, os inúmeros cadernos iniciados (…) Numa dessas páginas, que intitula ‘Júlio’, traça uma espécie de autorretrato: ‘16 anos. Belo, simpático, inteligente. Inebria-o a glória literária. Só pensa num futuro brilhante de poeta e escritor emérito. Mergulhado no pélago das ideias, ei-lo debruçado sobre a mesa de estudos. Júlio pensa. Em quê? Júlio sonha. Com quê? Pensa naquela menina que o põe tonto e que traz cativo o seu coração de ouro. Sonha em ser poeta; em gravar em páginas imorredouras as façanhas dos heróis do tempo; sonha em legar à Pátria um monumento que para sempre ofusque seus congêneres: um poema. Toma uma folha de papel, lança um título pomposo, delineia um conjunto, redige o sumário, dá nome aos personagens e… Lança-o na pasta para mais tarde começa-lo… Agora… Ei-lo mudado. Ei-lo entusiasmado por Carlos Magno, seu guerreiro favorito! Idealizando a conquista do mundo, Júlio traça planos de guerra, e crê ver seu nome ofuscando o dos Alexandres, Napoleões, dos Moltkes!” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 57-58)

1901 – Entra, no começo do século, para a Faculdade de São Francisco, na qual estudará Direito. Está então com 18 anos de idade. “Reside por algum tempo numa república da Rua Conselheiro Furtado, passa depois para a Ladeira do Riachuelo, desta para a Alameda dos Andradas, nº 76, pensão de uma família taubateana; mais tarde está na Rua José Bonifácio ou no Largo do Palácio, num velho sobradão, indo finalmente para o Cambuci, mas mudando-se logo em seguida para a Rua Araújo até descobrir o ‘Minarete’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 61)

Vida Intelectual: “O primeiro conflito sério com o avô não tarda a surgir. Os preparatórios estão no fim, e é chegado o dia da escolha da carreira a seguir. Para o Visconde não havia alternativa possível: o neto seria bacharel. Lobato insiste, pleiteando a Escola de Belas Artes – quer ser pintor. Nada conseguindo por esse lado escolhe a Escola de Engenharia. Mas naqueles tempos, para uma família tradicional, o caminho mais nobre, mais digno, mais de acordo com todas as aspirações, era o de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. E José Bento Monteiro Lobato não teve outro remédio senão capitular. Será, em toda a sua longa vida, a única vez em que, embora contrariado, faz uma concessão.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 61)

“O quarto do largo do palácio era dos melhores, mas o cômodo do ‘Cambuci’ proporcionou-lhe aventuras mais estranhas. Esse cômodo passou logo a ser conhecido como ‘L’Hermitage’, pois andava lendo ‘Robert Helmont’. À tarde Lobato costumava sair a passeio pelo bairro(…) Na volta de um desses passeios, introduziu-se numa rodinha de italianos, onde se falou de tudo, do papa, da língua italiana, dos dialetos, e até mesmo de literatura. ‘Sim, de literatura e eu, sequioso como estava por uma palestra, exultei de encontrar o Aurélio, um belo tipo de toscano, um anarquista, um leitor assíduo de Zola e de Kropotkine. Levei-o ao meu quarto, confessei-me também anarquista, falei da solidariedade humana, da segurança social e por fim despedimo-nos amigos’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 61-62)

1902 – Um grupo de colegas decide fundar uma associação destinada a promover sessões literárias a “Arcádia Acadêmica”. Lobato logo adere à ideia e é eleito presidente. Lobato sobe à “tribuna, no primeiro Onze de Agosto, para uma dissertação. ‘Outrora e Hoje’ é o tema escolhido.

Começa fazendo um apanhando do que fora a Academia de antigamente. Fala dos grandes vultos que nela agitaram altas ideias. Sua conclusão é a de que os meios acadêmicos se atrofiaram ‘em contato com o vil mercantilismo que neste século invade todas as esferas sociais’. O Ideal, com maiúscula, desapareceu com a realização de dois grandes ideais de outrora – o 13 de Maio e o 15 de Novembro. ‘E vós, exclama o jovem calouro, bem sabeis que sem um ideal, sem um fito, sem um destino, uma geração não pode progredir. Os vultos que surgiram – mediocridades sobressaídas pela força das circunstâncias – são raros, espaçados, espúrios -, lampejos de fogo fátuo. Não apareceu uma cabeça de chefe bem intencionada, bem orientada, que conduzisse a mocidade transviada do caminho perlustrado durante largos anos com tão notável brilhantismo. A sociedade acadêmica desuniu-se e perdeu a força. Desprestigiou-se e não mais foi considerada em vista da desunião e desprestígio, os dois mais terríveis cancros que podem ferir uma agremiação’

E o orador prossegue mostrando a madorra lamentável em que caíra a Academia de tantas tradições e tantas lutas. Com exceção do ligeiro estremecimento tido por ocasião da Revolta da Armada, quando se criou o Batalhão Acadêmico, o corpo discente parecia estar alheio ao debate de ideias que agitava o País. É certo, reconhece ele, que bruxoleiam atualmente os primeiros sintomas de uma nova fase regeneradora, mas as suas linhas estão ainda muito indecisas para que se possa formar um juízo seguro do que será ela, ‘se um dêsses clarões efêmeros que de quando em quando lançam as lâmpadas, ou um real e duradouro rejuvenescimento. Fala-se continua Lobato, na fundação de um grêmio, jornal ou revista, mas a mocidade de hoje indaga: para quê? Para que nos embrenharmos pelo mundo literário, artístico, científico, se a literatura, a arte, a ciência, possuem tão grande número de cultores?(…)

E é apelando para a Arcádia recém-fundada, e que já em si é uma formal contradição dos tempos que correm, não seja nunca perturbada pela discórdia que tudo deturpa e corrói, que ele encerra a sua oração, lembrando as palavras ‘do sublime Herculano’: ‘Há nesta época dois caminhos a seguir; um, estrada larga, batida, plana, sem peripécias, mas que conduz à prostituição da inteligência; outro, vereda estreita, tortuosa mal gradada, mas que dirige ao aplauso da própria consciência. Aqueles cujas esperanças não valem além das sombras do cemitério e aí veem, não o tempo de sua peregrinação na terra, mas o remate da existência, que sigam a estrada fácil. Nós, porém, que guardamos para além da vida as nossas melhores esperanças, tomaremos o bordão do romeiro e iremos rasgar os pés pela vereda de espinhos’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 64-65)

“Embora sem nenhuma vocação para as tricas políticas dos grêmios e associações; apesar de ser, por temperamento, avesso às atitudes salientes, de chefe de fila, Monteiro Lobato, no entanto, logo no primeiro ano do curso, vinha ocupar a tribuna mais importante das Arcadas para, em nome dos companheiros, alertar o corpo acadêmico, conclamá-lo a prestar atenção aos bruxoleios que denunciavam os primeiros sintomas de uma nova e regeneradora fase nos costumes políticos, literários e sociais da Nação. Que se preparava entre eles?

A resposta é fácil, e é o próprio Lobato quem a dá, dias depois, num artigo para o primeiro número de ‘Onze de Agasto’. Intitulando-o ‘A Fuga dos Ideais’, começa por acentuar que ‘somente um ideal social como o foco convergente dos ideais particulares consegue manter coesiva e harmonicamente um núcleo de vontades voltadas para um mesmo ‘desideratum’. Sem um liame como ele, torna-se inviável qualquer tentativa de associação, e é essa ‘causa única da aridez dos grêmios que todos notam na Academia desde o estabelecimento da República’. A verdade é que não existia, entre os estudantes, um ideal congraçador, bastante elevado, que enfaixasse as unidades esparsas, sufocanso as mil e uma dificuldades surgidas pelo atrito incessante das vaidadezinhas humanas. Quando havia escravos a libertar, o estandarte da abolição servia de sólido elo para as agremiações generosas. Logo depois foi esfraldada a bandeira da república, formaram-se partidos, dividiram-se os campos, houve forte polêmica, e o entusiasmo floresceu com exuberância. Mas tanto o 13 de Maio como o 15 de Novembro eram águas passadas. A mocidade completamente desnorteada, ‘perdera o fanal, a estrela guiadora’, ficara sem um núcleo de convergência de todas as aspirações, perdera, enfim, ‘o que a fazia dar as mãos e generosamente caminhar e lutar’. Desapareceram os clubes, as associações, os órgãos combativos e valentes. Daquele heroico espírito do passado são poucos os vestígios que restaram: ‘alguns corajosos abencerragens rígidos das tradições do mosteiro, que tentam assoprar as cinzas do fogo quase extinto’ (….)

No entanto (…) havia um ideal capaz de a todos congregar. Que ideal seria esse? É o próprio Lobato quem apregoa: ‘Atualmente só vemos um ideal bastante generoso, bastante amplo para acolher em seu seio tudo quanto a mocidade tiver de mais superiormente generoso, de mais finamente intelectual, de mais grandiosamente altruísta – o socialismo’.

E conclui, dizendo que a ‘regeneração da humanidade pelo advento definitivo da justiça, pelo império da verdade, pela extinção da miséria, pela destruição das classes, pela moralização da moral, pela reivindicação enfim de todos os direitos postergados, é modernamente a única coisa capaz de reacender nos corações a chama vivificante da fé idealista, dessa que abala montanhas e torna possível um grêmio de estudantes’.

Lobato descobrira nessa ocasião o livro de Gustave Le Bon – L’Homme et les Societés’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 66-68)

1903 – “Curioso acentuar que nenhum colega da turma de Monteiro Lobato fez parte de suas rodas fora da Academia. Os amigos com os quais se reúne no Café Guarani, ou nos quartos das pensões em que reside, são também, quase todos, estudantes de Direito. Mas, com exceção de Edgar Jordão, não pertencem à sua turma. Ou estão mais adiantados no curso, ou mais atrasados.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 73)

É nesta época que Monteiro Lobato descobre o “Minarete”, um chalé onde residiam Godfredo Rangel, Ricardo Gonçalves, Raul de Freitas e Artur Ramos, indo ali residir. E depois de Lobato vieram ainda outros: Tito Lívio Brasil, Albino de Camargo, Lino Moreira, Cândido Negreiros e José Antonio Nogueira. “A vida ali decorria entre piadas e risos, e altos sonhos de glórias literárias. Liam muito, discutiam muito.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 80-81)

“As tentativas da ‘Arcádia Acadêmica’, ou do ‘Onze de Agosto’ não conseguiram realizar o milagre de unir temperamentos tão díspares.” Desta forma surgiam na época grupinhos aparte. Um desses grupos se chamou o ‘Cenáculo’, do qual Lobato participou. “Relembrando alguns anos depois, Lobato procura contar a história de seu nascimento, história bem simples, sem lances ou imprevistos extraordinários. Havia um poeta, um filósofo, um crítico, um orador, um jornalista, um diletante, uma alma e um talento. Uma única ideia imperava em cada cabeça: um vago socialismo. Em cada coração um mesmo sentimento: o amor à arte. Essa ideia e esse sentimento foram aos poucos agrupando os vários temperamentos. A palavra ‘Cenáculo’ servia de rótulo, ao grupo. O poeta chama-se Ricardo Gonçalves; o filósofo, Albino Camargo; o diletante, Cândido Negreiros; a alma, Raul de Freitas; o talento, Godofredo Rangel; o jornalista, Tito Lívio Brasil; o orador, Lino Moreira, e o crítico, o próprio Lobato. Mais tarde o grupo seria acrescido de um mítico, José Antonio Nogueira.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 73-74)

“Se os estudos de Direito pouco interessam a Monteiro Lobato, a literatura, ao contrário, acaba por dominá-lo inteiramente. O encontro com o grupo do ‘Cenáculo’ deu-lhe o auditório e o ambiente necessário ao pleno desenvolvimento da inocultável vocação.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 78)

“Os originais de ‘Os Lambe-Feras’ e inúmeros outros originais dos componentes do ‘Cenáculo’ andavam de mão em mão no ‘Minarete’ lidos e aplaudidos ou vaiados com barulho ensurdecedor pelo grupo, todos ‘gênios’ ainda inéditos, à procura de uma válvula de escape para as suas expansões literárias (…)

Um amigo de Lobato, Benjamim Pinheiro, iria proporcionar a todos eles aquilo que viviam sonhando. Não a revita acalentada, mas páginas impressas nas quais, com absoluta liberdade, pudessem dizer o que bem desejassem. Benjamim formara-se em Direito e fora residir em Pindamonhangaba. Pretendia derrubar a situação dominante e eleger-se Prefeito, e, para começo de conversa, necessitava urgentemente de um órgão combativo, sem papas na língua. Lobato, que residira com Benjamim numa república, estava nesse tempo no ‘Minarete’. ‘Pois dê ao jornal o nome de ‘Minarete’ (…) Benjamim aprovou a ideia (…) O jornal era todo ele redigido em São Paulo pelos componentes do ‘Cenáculo’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 85-86)

“Nas férias de Junho dá início à troca de cartas com Godofredo Rangel, numa correspondência que vai durar quarenta anos sem interrupção.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p:111)

Em 2 de julho de 1903, é publicado o primeiro número do “Minarete”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 92)

“Nas férias seguia para Taubaté. “Não fazia então outra coisa senão ler, ler, ler. ‘Leio tanto que quando vou para cama, meu cérebro continua a ler maquinalmente’. É Larmatine, Zola, Renan, Balzac, Michelet, Shakespeare, Tolstoi, Maquiavel, Oliveira Lima, Eça e tantos outros mais (…) Começa a sonhar com uma viagem ao redor do mundo, ao mesmo tempo em que pensa traduzir ‘O Príncipe’, de Maquiavel, justificando assim a ideia: ‘Nossos tempos são corruptos, sem estilo e sem filosofia. Com Maquiavel bem difundido, teríamos um tratado de xadrez para uso destes reles amadores.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p:111)

“Do Mês de Agosto até Outubro escreve na “Crônica Teatral” do jornal acadêmico “Onze de Agosto”. Em uma de suas crônicas Lobato “dá o seu conceito de arte, dizendo que ‘arte é vida’, e só será artista aquele que reproduz a sensação da vida em toda a sua intensidade, com tudo o que ela tem de bom e de mau, de coerente e de absurdo, de feio e de formoso, de estúpido e de belo. Para êle a ‘arte é uma objetivação do subjetivo’.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 72)

“Conta Continho Filho que nessa época a paixão pelo teatro dominava Monteiro Lobato, e que êle chegara mesmo a gravar a canivete, no poleiro do sant’Ana, o lugar que habitualmente ocupava.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 72)

Entra num concurso de contos entre os alunos da faculdade obtendo o primeiro lugar com o trabalho “Gens Ennuyeux”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 69)

Nesta época, Lobato “acomodara-se na arquitetura de Herbert Spencer, mas sem adesão incondicional. Era melhor do que Comte, mas ainda não era bem, bem, bem o que queria. Enveredou por outros filósofos… Começou a bracejar na ciência, embebendo-se de positivismo, de evolucionismo, de materialismo, de darwinismo, de monismo, heterogêneamente, precipitada e loucamente, com a ânsia de um espírito que quebrou algemas e partiu em liberdade. Não sabia com certeza absoluta o que estava procurando, mas a curiosidade levava-o a devorar páginas sôbre páginas. Mas em todos só via sistemas, e no íntimo, por uma intuição cuja causa não saberia explicar, o que andava procurando era o anseio por um certo tipo de liberdade, que não havia em nenhum.” (Edgar Cavalheiro, Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 78)

Sentimentos: “Assim foi, conta Lobato, a primeira noite do ‘Cenáculo’: ‘As ideias borbulham no cérebro em catadupas, se entre chocam com rubro fragor. As identidades de natureza insuflaram em cada um a alma dos outros e um poderoso fluido de sugestão fazia brotar um número fabuloso de idéias. Adormecidas sob a falta de oportunidade, elas viviam em estado latente em cada cabecinha. A discussão, a excitação do momento, o entusiasmo, a corrente elétrica que fazia delirar o grupo ganha a própria impassibilidade de Albino, e tão desastrosamente, que ele quebra com o cotovelo o espelho do Cândido…’” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 75)

1904 – Monteiro Lobato “começa a jogar futebol, apaixonando-se pelo esporte (…) ‘O futebol empolgou-me de corpo e alma; escrevo crônicas de futebol e jogo. O futebol apaixona e contunde’, comunica a Rangel.” (Edgar Cavalheiro. Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 114)

Em dezembro deste ano, Monteiro Lobato recebe o grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, “completando o lustro acadêmico com o mesmo desinteresse inicial pelos estudos. ‘De Direito, depõe Augusto Sílvio, nunca falamos nas conversações, e se classificávamos os lentes era pela qualidade de sais das pilhérias, sal ático, ou sulfato de magnésia’.” (Edgar Cavalheiro. Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 111)

“Enquanto não chega o fim do ano, desimpedindo-o de uma vez, Monteiro Lobato afunda-se em leituras e procura uma filosofia. O destino levara-o a ler, casualmente, certa frase de Nietzsche, numa brochura que um colega trazia debaixo do braço. (…) Fora ao livreiro em procura daquele e de outros volumes do mesmo autor (…)

‘Foi, confessaria depois, a maior bebedeira da minha vida. Aquele pensamento terrivelmente libertador intoxicou-me. Um dos seus aforismos penetrou em meu ser como a grande coisa que eu procurava. ‘Vade Mecum? Vade Tecum.’ ‘Queres seguir-me? Segue-te.’” (Edgar Cavalheiro. Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 112)

“Lobato concluiu os exames a 7 de dezembro. Resta, agora, a última formalidade: a entrega de diplomas. Imagina que a sensação – vestir a beca, encaminhar-se à tribuna, etc. – deve ser a mesma que lhe causou a primeira calça comprida. Uma vergonha de todo mundo. Duas coisas sempre o constrangeram: as solenidades oficiais, com todos os chavões e protocolos, e a perspectiva de tornar-se alvo dos olhares curiosos e penetrantes. O rubor subia-lhe logo às faces. Apequenava-se ainda mais, constrangidíssimo.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 114-115)

1904 – “Escrevendo a Rangel, não é menor o entusiasmo, ‘Considero Nietzsche o maior gênio da filosofia moderna. É o homem ‘objetivo’. Dum banho de Nietzsche saímos lavados de todas as cracas vindas do mundo exterior e que nos desnaturam a individualidade. Da obra de Spencer saímos spencerianos; da de Kant saímos Kantistas; da de Comte, saímos contistas – da de Nietzsche saímos tremendamente nós mesmos. Nietzsche é potassa cáustica. Tira todas as gafeiras.” (Edgar Cavalheiro. Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 113)

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abr. 18 2013 Staff Categoria: Efemérides

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Museu Monteiro Lobato