Nos últimos tempos (1945-1948)

1945 – Lançamento de Nasino, edição italiana de Narizinho ilustrada por Vincenzo Nicoletti.

Em janeiro, Monteiro Lobato integra a delegação paulista do I Congresso Brasileiro de Escritores reunido em São Paulo. É divulgada, no encerramento, uma declaração de princípios exigindo “legalidade democrática como garantia da completa liberdade de expressão do pensamento” e redemocratização plena do país.

Em março, após o longo período de isolamento imposto pela censura do Estado Novo, Lobato concede entrevista ao Diário de São Paulo, de grande repercussão.

E maio, a menina do narizinho arrebitado é transformado em novela para crianças pela Rádio Globo no Rio de Janeiro.

Em 15 de junho, William Rex Crawford, adido cultural da embaixada americana no Rio de Janeiro, encaminha a Walt Disney sugestão de Luiz de Toledo Piza para que fossem incorporados temas e personagens da obra infantil de Lobato em futuras produções de seu estúdio.

Em 23 de junho, Lobato participa da fundação e torna-se diretor do Instituto Cultural Brasil-URSS. Convidado pelo Partido Comunista para fazer parte de sua chapa de candidatos às eleições gerais marcadas para dezembro, declina do convite.

Em 27 de junho, Lobato assina contrato com a Editora Brasiliense para edição de suas Obras Completas.

Em julho, ainda recuperando-se de intervenção cirúrgica em que retirou um quisto no pulmão, Monteiro Lobato envia discurso gravado de saudação a Luís Carlos Prestes para o comício realizado pelos comunistas no Estádio do Pacaembu, São Paulo.

Lobato acompanha o processo de redemocratização que sacudiu o país, culminando com o fim da Ditadura do Estado Novo e a queda de Getúlio Vargas em 29 de outubro, e mostra-se pessimista com a perspectiva da vitória de Dutra nas eleições.

Finaliza a sua última tradução, o último volume (já tinha traduzido os outros) da “História da Civilização” de Will Durant.

Com a publicação de “Os Doze Trabalhos de Hércules”, Lobato conclui a saga infantil iniciada com “Narizinho Arrebitado”. São 39 histórias, das quais 32 originais e 7 adaptações. São quase um milhão de exemplares e os planos editoriais ainda são grandiosos: aparecerão 37 livros no mercado de Língua Espanhola; os 30 volumes de “Obras Completas” estão em preparo. Já foi traduzido para o Francês, Espanhol, Inglês, Árabe, Alemão, Japonês, Iídiche e Italiano. Para Cavalheiro, “A literatura infantil nasce, cresce e termina por absorver-lhe todas as atividades intelectuais, sem que para tal se preparasse conscientemente.”.

Lobato participa do Congresso realizado em São Paulo que reuniu escritores de todos os Estados que declararam as insatisfações com o governo. Lobato é muito requisitado, mas suas palavras não são publicadas devido à censura.

Com o fim do Estado Novo, Lobato faz uma entrevista ao jornalista Tulman Neto com declarações sobre a liberdade de expressão, elogios à ordem socialista e a Luís Carlos Prestes, trata da inflação monetária, da mentira estado-novista, fala com simpatia da experiência soviética. A entrevista é publicada pelo “Diário de São Paulo”, que a reproduziu a pedidos e foi publicada em seguida em outros jornais.

Frequentemente, os jornalistas procuram-no para falar sobre tudo. Segundo Cavalheiro, “todos queriam ler o que Lobato dizia. A explicação não tem mistérios: ninguém, tanto quanto ele, sabia ser tão franco e pessoal no zurzir vícios e mazelas (…)”. Quando não está com os repórteres, está em comissões de estudantes, comitês de operários, políticos, ou gente do povo, amigos e admiradores. Às vezes, se desespera com os compromissos, pois os pequenos leitores querem mais livros. Monteiro Lobato não gosta mesmo é de realizar discursos ou conferências. As entrevistas que espalhou pela imprensa foram reunidas por Lobato no volume “Prefácios e Entrevistas”, “dando preferência às mais substanciosas, aquelas nas quais expôs ideias próprias sobre os grandes problemas do momento, ou então as puramente biográficas”. As suas entrevistas não se restringem a um ou dois temas, “pelo espírito inquieto do entrevistado”.

É sempre muito requisitado para entrevistas e também para prefácios. “A todos ia atendendo pacientemente”.

Revela em carta a Godofredo Rangel que pretende levar “Dona Benta e seu pessoalzinho para Roma”.

Considera os “grandes prêmios” da vida as cartas que recebe diariamente de crianças de todos os pontos do Brasil e da América Latina. As cartas revelam o entusiasmo das crianças com as suas histórias; pedidos de autógrafos e fotos do autor; são inúmeros os pedidos para conhecer o “Sítio” ou para participar de uma aventura com as personagens. O autor sempre atendia aos pedidos das crianças. Há, também, os criadores de histórias que lhe sugerem assuntos, novas viagens, indicam livros a serem traduzidos. Outro setor curioso nas cartas são os convites e oferecimentos: convites para as personagens comparecerem a festas de aniversário; comunicações de que o autor é o patrono de uma Biblioteca Infantil, Grêmio Escolar, Clube de Leitura. As mães também escreviam para Lobato, as antigas leitoras, que precisam revelá-lo o sentimento que possuem, de amizade e gratidão.

1946 – Continua revendo as provas de “Obras Completas”.

É lançado “Obras Completas” no Brasil e lançado na Argentina toda a série infantil de Lobato. Sua situação econômica se consolida.

Lançamento da primeira série (literatura geral) das Obras Completas pela Brasiliense, em 13 volumes. Na Argentina, vem a público Las 12 hazañas de Hercules, pela Editorial Acteon.

Em fevereiro, Lobato torna-se sócio da Editora Brasiliense, fundada em novembro de 1943 por Caio da Silva Prado, Leandro Dupré, Hermes Lima, Artur Neves e Caio Prado Júnior.

Lobato “sem mais esperanças no Brasil, achando que por aqui tudo andava podre, e que seriam necessárias inúmeras gerações para reparar o mal feito ao país, com a Ditadura do Estado Novo e a Ditadura disfarçada que se iniciava, o escritor só pensa em exilar-se. A Argentina agora é uma ideia fixa.”.

Quer realizar o seu grande sonho: viajar pelo Pacífico, Andes até o México, sem pressa.

Admira literatos, como os cronistas Rubem Braga e Raquel de Queiroz, os romancistas Jorge Amado, José Lins do Rego e Érico Veríssimo, os ensaístas Gilberto Freire e Lúcia Miguel Pereira.

Em junho, atraído pelos belos e gordos bifes, pelo magnífico pão branco e fugindo da escassez que assolava o Brasil, conforme declarou à imprensa, Monteiro Lobato embarca para a Argentina.

Em outubro, na cidade de Buenos Aires, Lobato funda, com Manuel Barreiro, Miguel Pilato e Ramón Prieto, a Editorial Acteon.

1947 – Lançamento da segunda série (literatura infantil) das Obras Completas pela Brasiliense, com 17 volumes.

Tradução: O problema econômico de Cuba.

Em carta de 2 de fevereiro de 1947, escreve para Luís Carlos Prestes a propósito das eleições realizadas em São Paulo que elegeram Ademar de Barros, do Partido Comunista, para a presidência do Estado. Na carta, Lobato recoloca o líder em seu lugar de destaque, pois as suas ações, após o ato errôneo de aceitar Getúlio Vargas, foram muito bem vistas pelo escritor.

Um de seus últimos atos políticos é a carta que escreve a Caio Prado Júnior, quando este se encontrava na prisão por ter assinado um manifesto em defesa da autonomia de São Paulo.

A morte é o seu tema mais recorrente. A correspondência com Rangel, a partir deste ano, deixa-nos a impressão de que o escritor não fazia outra coisa senão preparar-se para a morte: “Daqui por diante, diz ele, o que tenho a fazer é arrumar a quitanda para a grande viagem, coisa que para mim perdeu a importância depois que aceitei a sobrevivência. Estou com uma curiosidade imensa de mergulhar no Além!”.

Percebe que falta na Argentina um livro que explique o que está acontecendo no País. Estuda a nação e escreve “La Nueva Argentina” para crianças com o pseudônimo de Miguel P. Garcia, editado pela Editora Acteon. Na Argentina, todos falam da clareza com que Lobato expôs às crianças o plano quinquenal do Presidente argentino o General Perón. “Defende o plano quinquenal, texto corrido e didático, onde um pai – fazendo de D. Benta – explica aos filhos a plataforma (peronista) que transformará a Argentina num país forte e feliz.” A imprensa brasileira divulga o caso apresentando a obra como uma encomenda do Governo Perón. Conclui que “ao que parece, o Sr. Monteiro Lobato andou comendo pratos condimentados pelo impetuoso esposo da Sra. Evita”. Lobato responde: “Não se trata de nenhum negócio escuso ou inconfessável. Trata-se de um escritor livre, libérrimo mesmo, que só diz o que pensa e escreve o que quer, onde quer que esteja, no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos.”.

Escreve “Zé Brasil”, que cria grande rebuliço na imprensa, pois o momento é de reação que poderia derrotar o Partido Comunista. O livro descreve o drama de um homem rural que assina contratos com os donos das terras dando em troca a sua produção. É mais um Jeca Tatu, mas “o artista não está presente em “Zé Brasil”. Muitos disseram que Lobato estava tomando a posição contra os proprietários de terra ao colocar em pauta o problema agrário. Com a reação política, “Zé Brasil” é apreendido e muitos escrevem ao autor querendo um exemplar deste livrinho que todos falam, mas ninguém tem.

Converte-se num Jeca atualizado que discute as ideias de Carlos Prestes, líder de manifesta simpatia de Lobato; e no qual o latifúndio é apresentado como o maior mal, denunciado na figura do coronel Tatuíra, que nada planta. Este texto saiu em folheto, muito procurado, em edições clandestinas. A Editorial Calvino chegou a tirar uma edição de luxo, inclusive, ilustrada por Portinari.

Em maio, Monteiro Lobato volta ao Brasil. Em entrevista aos repórteres que o aguardavam no aeroporto, classificaria o governo Dutra de “Estado Novíssimo, no qual a Constituição seria pendurada (suspensa) num ganchinho no quarto dos badulaques”.

Comove-se com a recepção e diz que voltara “forçado pelas saudades da língua, dos bate-papos intermináveis, das conversas para boi dormir, e outros “caldos de goiaba”.

Em junho, diante da proibição das atividades do Partido Comunista em todo o país, determinada pelo ministro da Justiça, escreve para um comício de protesto a parábola do Rei Vesgo. Lido e aclamado pela multidão reunida no Vale do Anhangabaú na noite de 18 de junho, o texto reflete o desencanto de Lobato com a democracia restritiva do general Dutra.

Texto na íntegra:

“Na frente do palácio de certo rei do Oriente havia um morro que lhe estragava o prazer. Esse rei, apesar de ser vesgo, tinha uma grande vontade de ‘dominar a paisagem’; vontade tão grande que ele não pôde resistir, e lá um belo dia resolveu secretamente arrasar o morro. Tratava-se, porém, de um morro sagrado, chamado o Morro da Democracia, e defendido pelas leis básicas do reino. Nem essas leis nem o povo jamais consentiriam em sua demolição, porque era justamente o obstáculo que limitava o poder do rei. Sem ele o rei dominaria ditatorialmente a paisagem, o que todos tinham como um grande mal.

Mas aquele rei, que além de vesgo era malandro, tanto espremeu os miolos que teve uma ideia. Piscou e chamou uns cavouqueiros, aos quais disse:

– Tirem-me um pouco de terra desse morro, ali há umas touceiras de craguatá espinhento.  Se o povo protestar contra minha mexida no morro, direi que é para destruir o craguatá espinhento; e que se tirei um pouco de terra foi para que não ficasse no chão nem uma raiz ou semente.

Os cavouqueiros arrancaram os pés de craguatá e removeram várias carroças de terra. O povo não protestou; não achou que fosse caso disso. Só alguns ranzinzas murmuraram, ao que os apaziguadores responderam:

– Foi muito pequena a quantidade de terra tirada; não fará falta nenhuma.

Vendo que não houve protesto, o rei, logo depois, deu nova ordem aos cavouqueiros para que arrancassem outro pé de qualquer coisa, mas com terra – ele fazia muita questão de que a planta condenada saísse sempre com um bocadinho de terra… Continuando o povo a não protestar, prosseguiu o rei por muito tempo naquela política de “extirpação das plantas daninhas do morro”, e as foi arrancando, sempre “com terra”, até que um dia…

– Que é do morro?

Já não havia morro nenhum no reino. Desaparecera o Morro da Democracia, e o rei pôde, afinal, estender o seu olho vesgo por todo o país e governá-lo despoticamente – não pelo breve espaço de apenas quinze anos, mas trinta e tantos, segundo rezam as crônicas históricas.

Isso foi no Oriente. Mas nada impede que aqui aconteça o mesmo, porque também temos o nosso morrinho da Democracia, cheio dessas plantas más que costumam nascer em tais morros. É preciso, pois, que o povo se mantenha sempre vigilante, para que os nossos reis vesgos não as arranquem “com terra”. Do contrário o morro se acaba – e… como é? Ditadura outra vez? Tribunalzinho de Segurança outra vez? Paizinho dos pobres outra vez?

Este comício tem essa significação. É um protesto do povo contra as primeiras carroçadas de terra que o nosso rei, sob o pretexto de arrancar o craguatá espinhento do comunismo, tirou do nosso Morro da Democracia. Cesteiro que faz um cesto faz cem. Quem tira uma carroçada de terra tira mil. Se não reagirmos energicamente, um dia estaremos privados do nosso morro e com um terrível soba dominando toda a planície.

E se tal acontecer, e esse soba instituir o relho como instrumento de convicção, será muitíssimo bem feito, porque outra coisa não merece um povo que deixa seus governantes despojarem-no pouco a pouco das suas mais belas conquistas liberais.

O preço da liberdade é uma vigilância barulhenta como os gansos do Capitólio.”

Em agosto, muda-se para o apartamento cedido por Caio Prado Júnior, no último andar do prédio da Editora Brasiliense, na rua Barão de Itapetininga, Centro de São Paulo.

Em dezembro, vai a Salvador assistir à opereta Narizinho arrebitado, de Adroaldo Ribeiro da Costa. Lobato escreveria novo libreto para o espetáculo, considerado sua última criação infantil.

O teatro infantil de Adroaldo Ribeiro Costa começa em fins de 1941, no exato momento em que ele teve a ideia de teatralizar o conto de Monteiro Lobato A Menina do Narizinho Arrebitado.

(…) Lobato era, àquela altura, o mais festejado dos autores brasileiros. Os seus livros, sobretudo os infantis, eram vendidos aos milhares, rara era a casa que não possuía a sua obra completa encadernada, lida e relida. Era também o intelectual mais visado pela imprensa. As suas opiniões, as suas entrevistas, eram disputadas avidamente pelos jornalistas, o que ele dizia ou fazia virava manchete, vendia jornais. Que importância daria o grande escritor ao desconhecido professor baiano, que tinha a pretensão de adaptar o seu livro para o teatro? Adroaldo escreveu-lhe uma carta no dia 7 de janeiro de 1942, e tinha tão pouca esperança de obter uma resposta, que nem guardou uma cópia, do que se arrependeu para o resto da vida.

Considerando o tempo gasto pelos Correios, a resposta de Monteiro Lobato foi imediata, pois chegou com data de 15 daquele mês, ou seja, apenas oito dias depois, e não apenas autorizava a teatralização do conto, como mostrava grande entusiasmo pelo projeto. Eis a carta:

 

S. Paulo, 15.1.942
Prezado Sr. Ribeiro Costa:
Em mãos sua gentilíssima carta de 7, na
qual confessa a sua irresistível inclinação para o
teatro, coisa infinitamente mais desejável que a
vocação para reordenar o mundo a ferro e fogo
daquele Adolfo germânico. Essa ideia de teatralizar
as façanhas do povinho do Picapau Amarelo tem
me ocorrido várias vezes — mas as decepções da
vida me vieram tantas que já não me resta ânimo
para coisa nenhuma. Daí meu interesse em que
alguém o faça. Aprovo, pois, com o maior prazer,
a sua ideia, e pela amostra que sua carta me dá de
seu espírito tenho a certeza de que ninguém o fará
melhor. E se puder mandar-me uma cópia da
teatralização, muito satisfeito ficará este seu
amigo agradecido e admirador
Monteiro Lobato.

 

Adroaldo ainda não havia escrito a opereta, apenas feito um esboço, a lápis, no próprio livro, mas saiu imediatamente e comprou cadernos para dar início ao trabalho. Tinha duas dificuldades pela frente: primeira, transportar uma ação que ocorrera na ilimitada imaginação do autor, para os rígidos limites da cena; segunda, transformar em diálogo tudo o que, no livro, era narração. Naturalmente, isto envolveria um trabalho de recriação, muitas vezes de criação, e tudo isso teria de agradar ao autor da história original. Emília era a sua maior preocupação.

Nos livros seguintes, Lobato a transformaria na principal personagem do Sítio do Picapau Amarelo, sendo a sua preferida e até confundida com ele próprio. Mas, naquele primeiro conto, era apenas uma bruxa de pano, muda e imóvel, como qualquer boneca, que apenas adquiria movimento na cena do Escorpião Negro. O Escorpião invade o Reino das Águas Claras durante a visita de Narizinho e é derrotado pela boneca, que lhe enfia nos olhos o espeto de assar de Tia Nastácia. Essa é a única movimentação de Emília no conto original. Adroaldo teria de dar-lhe vida e movimento, e, mais do que isto, criar falas interessantes para a bonequinha, tudo dentro do espírito lobatiano, com o humor e a irreverência que haviam se tornado as marcas inconfundíveis e preciosas da personagem. Imaginou logo o início da opereta: após a protofonia, o prólogo, com a apresentação musicada e visual da história, e das personagens. Em seguida, se abriria a primeira cortina, e entraria Narizinho cantando, com a bruxa de pano carregada. Foi tal a sua alegria em receber a autorização de Lobato que, naquela mesma tarde, enquanto tomava banho, a água caindo fresca e vivificadora do chuveiro sobre o corpo, compôs, letra e música, essa canção que Narizinho entra cantando, a “Ária de Narizinho”. A letra é a síntese de um conto de fadas: “Era uma vez uma rainha / Que tinha inveja da enteada / Porque era linda a pobrezinha / Foi na floresta abandonada… / Vovó contou / Que a linda princesinha / Sofreu, chorou / Mas acabou rainha / Feliz reinou / Num palácio dourado / Pois se casou / Com um príncipe encantado”.

Curioso que, ao conceber a teatralização d’A Menina do Narizinho Arrebitado, a forma opereta fosse, de pronto, a escolhida. É que não havia nenhuma experiência similar, não se tinha sequer notícia de algo parecido feito por e para crianças. Entretanto, pareceu-lhe que, para motivar os atores e espectadores mirins, e fazer dos limites do palco um irresistível mundo da fantasia, teria de utilizar-se, e largamente, de todos os recursos cênicos: a música, o canto, a dança, o figurino, o cenário, as luzes e as cortinas. Queria que ocorresse às crianças o que lhe ocorrera ao ler o conto na infância, quando não apenas lera o livro, mas vivera a história.

Queria que elas não apenas representassem ou assistissem, mas fizessem a viagem de Narizinho ao Reino das Águas Claras. A música, em particular, seria de fundamental importância para causar esse efeito. Algumas ele já havia composto nas suas horas de lazer em Santo Amaro da Purificação, pelo simples prazer de compor, sem que tivesse, para elas, qualquer objetivo, como “A Cigarra e a Formiga”, uma adaptação musicada da fábula de Esopo que La Fontaine também adaptou, e a “Canção do Sofrê”, inspirada no canto do curioso pássaro das matas brasileiras. Havia criado, também, este com o objetivo de abrir as audições caseiras de um trio amador que ele formava com os dois irmãos, o “Hino das Águas Claras”, que, evidentemente, ao ser composto, não tinha este nome. As outras músicas foram nascendo à medida que ia escrevendo o texto, ao sabor das sugestões da história. Compunha ao piano e fixava na memória, porque, apesar de tocar muito bem de ouvido, não escrevia música. Era necessário pôr tudo aquilo no pentagrama, criar as partituras para os instrumentos e fazer a harmonização da orquestra.

Foi, então, que decidiu incluir no projeto Agenor Gomes.

Conhecera-o em Santo Amaro da Purificação em 1938, quando Gomes ali exerceu, por pouco tempo e muito a contragosto, a função de gerente de um banco. A contragosto, porque o único interesse da sua vida era a música. Tendo nascido na cidade baiana de Valença e passado rapidamente por Santo Amaro, Gomes residia em Salvador. Músico versátil, conhecedor dos recursos dos instrumentos e dos segredos do arranjo, da instrumentação e da regência, seria a pessoa ideal para colocar aquelas músicas na pauta e, depois, reger a orquestra. O projeto rapidamente empolgou Gomes, que não se satisfez em copiar as músicas que Adroaldo ditava, quis também compor algumas, ser o coautor da parte musical da opereta. Assim é que Narizinho acabou tendo, musicalmente, dois autores, Adroaldo Ribeiro Costa e Agenor Gomes, cada um deles responsável por, praticamente, o mesmo número de composições. Vale lembrar, entre as composições de Gomes para Narizinho, a “Dança das Sombras”, a “Sinfonia do Marido-é-Dia” e a “Valsa Real das Águas Claras”, enquanto de Adroaldo podem ser destacadas a própria “Ária de Narizinho” – com seus desdobramentos “Fantasia da Ária” e “Ária em Acalanto” –, a “Dança dos Tangarás” e a “Dança das Libélulas”.

A “Protofonia”, composta por Gomes, aproveita trechos melódicos das várias composições da opereta, tanto dele próprio quanto de Adroaldo. No total, vinte e cinco músicas, duas ou três delas não ainda na primeira versão da opereta.

Concluídos os trabalhos de texto e música, era intenção de Adroaldo partir, imediatamente, para a encenação. Mas como? Do papel ao palco havia a enorme distância de todas as dificuldades.

Precisava arregimentar crianças para o elenco, ensaiá-las, obter recursos para a confecção do guarda-roupa e do cenário, também para o pagamento da orquestra, contar com uma equipe técnica numerosa e eficiente, enfim, um mundo de providências e de recursos materiais e humanos dos quais ele, absolutamente, não dispunha. Foi quando ocorreu uma mudança em sua vida que acabou favorecendo o projeto. Até 1942, ele vivia entre Santo Amaro da Purificação e Salvador, ensinando no Ginásio Santamarense e no Colégio Nossa Senhora da Vitória, dos Irmãos Maristas. Mas, em 1943, sentindo que Santo Amaro da Purificação guardava, com mais intensidade, as lembranças da noiva perdida, e cedendo finalmente à vontade do pai, que insistia em “que ele vencesse na capital”, resolveu fixar-se definitivamente em Salvador. Poucos meses depois, em 25 de julho, iniciou a Hora da Criança.

Surgida como um programa de rádio aos domingos pela manhã, na PRA-4, Rádio Sociedade da Bahia, àquele tempo órgão da poderosa organização Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand, numa época em que, além do jornal impresso, o rádio era o único veículo de comunicação de massa, com imensa audiência, a Hora da Criança, que trazia a chancela da Secretaria de Educação e atuava sobre bases pedagógicas, logo se transformou num movimento artístico de vulto. Desse programa, realizado em auditório, participavam dezenas de crianças e também dezenas de adultos, que, aos poucos, iam se aproximando e acabavam por se incorporar com entusiasmo à equipe de trabalho. Seu hino, que ficou famoso, música de Gomes e letra de Adroaldo, era cantado por todo o elenco na abertura e no encerramento das audições e era uma síntese do programa: “Os meninos da Bahia, / Nesta Hora da Criança, / A mensagem da esperança / Vêm trazer com alegria. / Que, na terra em flor, / haverá amor; / que, nos céus de anil, / haverá esplendor; / que, enquanto nós cantarmos, / haverá Brasil”.

Foi o início de uma nova e extraordinária experiência para Adroaldo, que passou a conviver diariamente com crianças de diversas idades, nos ensaios e nas apresentações do programa radiofônico. Para esse programa, foi criado todo um repertório, sempre ajustado ao elenco. As audições, apresentadas ao vivo pelo próprio Adroaldo, utilizavam-se amplamente da música – que era sempre de Adroaldo, de Gomes ou de ambos, em parceria –, mas, também, do rádio-teatro, com sketches, monólogos e adaptações de histórias infantis de sua autoria, que eram representados e interpretados com grande facilidade e um evidente encantamento, tanto do elenco que realizava essas apresentações, quanto do imenso público, da capital e do interior, que ouvia e acompanhava semanalmente. Observando o comportamento e as reações das crianças diante do microfone e no auditório, Adroaldo consolidou a teoria que vinha elaborando sobre a importância do teatro como instrumento de educação complementar, tanto na educação formal quanto na doméstica, aumentando a sensibilidade artística, estimulando a imaginação, proporcionando a vivência da fantasia, tão necessária para as mentes infantis. Havia também a vantagem de desinibir, habituando a criança ao microfone, ao palco e ao público, o que lhe seria de grande proveito para toda a vida, em qualquer profissão a que se destinasse. Por outro lado, o numeroso grupo de meninos e meninas que participavam do programa já constituía um elenco em potencial para a opereta. Dessa forma, longe de eclipsar o sonho de Narizinho, a Hora da Criança deu-lhe maiores justificativas para insistir no empreendimento, passando a vê-lo como o início de um teatro infantil permanente, que não se esgotava ao fim de uma temporada, mas, pelo contrário, apresentava uma atividade contínua cujos resultados podiam ser avaliados em temporadas sucessivas, o que também era, na época, algo inédito. E ele deu início aos ensaios.

Havia dois obstáculos a serem vencidos: local para os ensaios e dinheiro para a montagem. O primeiro pôde ser superado, mas não o segundo. Só em 1947, com Anísio Teixeira na Secretaria de Educação, foi conseguido um semipatrocínio, porque, de fato, a verba integral prometida para o custeio de toda a montagem jamais foi paga, e Narizinho foi encenada. Foi um trabalho de muitos, mas será justo lembrar Aldegar Ribeiro Costa, irmão de Adroaldo e administrador financeiro do empreendimento; Agenor Gomes, coautor musical, orquestrador, ensaiador e regente; Álvaro Zózimo, encarregado do figurino e da montagem; Nady Stavola de Menezes, responsável pelo canto e pela contrarregragem; Odete Franco, a coreógrafa; Dulcelino França Monteiro, o criador das mágicas; e Noêmia Rocha da Silva, a coordenadora do guarda- roupa – confecção e camarins –, comandando uma equipe de senhoras voluntárias, a maioria mães das crianças do elenco.

Adroaldo ficou na direção geral.

Na noite de 22 de dezembro de 1947, abriram-se as cortinas do antigo Teatro Guarani, na Praça Castro Alves, para que cento e dez crianças no palco, e outras dezenas na plateia, vivessem o sonho de Narizinho. No teatro superlotado, encontravam-se autoridades, intelectuais, jornalistas, o governador da Bahia, Octavio Mangabeira, o secretário de Educação, Anísio Teixeira, e o próprio Monteiro Lobato, autor do texto original que servira de base a Adroaldo para a adaptação. Lobato estava doente, cansado e desiludido, mas viajou de São Paulo para Salvador apenas para presenciar aquela estreia.

Naquele momento, naquele teatro e na Bahia, não apenas se apresentava Narizinho, mas algo inteiramente novo: a opereta infantil, o teatro infantil, o Teatro Infantil Brasileiro – que, pelo menos naqueles moldes, do grande teatro voltado para o grande público, nasceu em Salvador, naquela noite.

As notícias registradas pela imprensa da época, as opiniões escritas de pessoas que assistiram ao espetáculo, as opiniões emitidas pelo próprio Lobato, em cartas a Adroaldo e a seus colaboradores, e as entrevistas que ele concedeu aos jornais do Sul do país comprovam não apenas o êxito da apresentação, mas também o impacto causado pela novidade de um teatro infantil daquela qualidade, encenado por crianças, para crianças e adultos.

A título de curiosidade, uma opinião de Lobato que muito provavelmente o próprio Adroaldo não soube, e que foi transmitida a Aramis Ribeiro Costa, pela atriz baiana Jurema Pena. Aramis é autor desse trecho que conta a vivência de Adroaldo com Lobato. Após o espetáculo, ainda emocionado, o autor do Sítio do Picapau Amarelo disse a um grupo, que dele se acercou:

– Agora eu posso morrer. Vi minha Emília falar.

Narizinho voltaria à cena, sob a direção de Adroaldo, em mais quatro temporadas: 1951, 1956, 1961 e 1972, sendo sempre reescrita e adaptada ao novo elenco, até a sua concepção definitiva, a de 1972, na qual Adroaldo suprimiu o quarto ato, concluindo o sonho da menina Narizinho após o baile, no terceiro ato, quando o Príncipe Escamado e o Escorpião Negro lutam, e Escamado é salvo por Emília. Após o pedido de casamento do príncipe, ouve-se a voz de Tia Nastácia, o pano desce, e Narizinho, despertando do seu sonho à beira do riacho, deixa suavemente a ribalta a cantar a “Ária”.

1948 – Participa da fundação da revista Fundamentos; publicados os folhetos “De quem é o petróleo na Bahia” e “Georgismo e Comunismo”.

Sofre de um espasmo vascular. O ataque não lhe traz paralisia ou distúrbios, porém deixa no escritor uma Alexia. “Lobato enxergava perfeitamente, podia acompanhar com o dedo o contorno das letras impressas na capa de um dos seus livros. Não era capaz, no entanto, de relacionar os símbolos gráficos com o seu significado”. O começo é bem difícil para o autor que se considera no grupo escolar, mas com algumas semanas começa a melhorar.

Última carta que escreve é a seu neto Rodrigo, revelando que já está muito cansado e que, em breve, mudará para o outro mundo.

Em julho, Lobato concede a Murilo Antunes Alves, da Rádio Record, sua última entrevista. Opina sobre o petróleo, sobre a política nacional e internacional, revela o amor que tem pelas crianças e se arrepende de ter perdido tanto tempo escrevendo para os adultos. Acha que o mundo está mesmo perdido e que só gostaria de voltar ao mundo novamente se fosse para escrever mais histórias para as crianças.

1ª parte

2ª parte

3ª parte

Em 3 de julho, almoça com amigos revela que, no dia seguinte, não poderiam se encontrar, pois, caso o procurassem, só encontrariam um cadáver. E repete o que disse a um jornalista anteriormente: “Meu cavalo está cansado, querendo cova, e o cavaleiro tem muita curiosidade em verificar, pessoalmente, se a morte é vírgula, ponto e vírgula ou ponto final”. À noite, é visto na Livraria Brasiliense cercado de admiradores. Morre às quatro da manhã de um espasmo vascular que o atacou enquanto dormia.

Em 4/7/1948 – O criador do Sítio do Picapau Amarelo morre, às 4 horas da madrugada, vitimado por um derrame. Após velório na Biblioteca Municipal, seu corpo seguiu acompanhado por milhares de pessoas para o cemitério da Consolação, no qual foi sepultado na quadra 25, terreno 2.

 

Direitos Reservados 2013 consultar créditos.

abr. 18 2013 Staff Categoria: Efemérides

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Museu Monteiro Lobato