Na mira da Ditadura (1940-1944)

1940 – Lançamento de Contos pesados. Traduções: História do futuro, A formação da mentalidade, História da bíblia e A epopeia americana. “Continuo traduzindo. A tradução é minha pinga. Traduzo como o bêbado bebe: para esquecer, para atordoar. Enquanto traduzo, não penso na sabotagem do petróleo.” São Paulo, 15/4/1940.

Em maio, em nova carta a Getúlio Vargas, Lobato reitera suas denúncias e acusa o Conselho Nacional do Petróleo de agir a favor dos “interesses do imperialismo da Standard Oil e da Royal Dutch”, perpetuando “a nossa situação de colônia americana dos trustes internacionais”. Na mesma ocasião, e nos mesmos termos, envia carta ao general Góis Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército, em que diz: “sou obrigado a continuar na campanha [do petróleo], não mais pelo livro ou pelos jornais, porque já não temos a palavra livre, e sim por meio de cartas aos homens do poder”.

Em agosto, o general Júlio Caetano Horta Barbosa, presidente do Conselho Nacional do Petróleo, remete um longo ofício a Vargas no qual relata sua versão dos fatos, que “falam mais claro que a arenga do Sr. Monteiro Lobato”.

Em dezembro, a rádio BBC, de Londres, irradia em diversos idiomas artigo-entrevista em que Lobato faz uma retrospectiva do regime republicano no país, “caracterizado pela progressiva restrição das liberdades civis e da garantia de direitos”. Afirmando a admiração dos brasileiros pelos ingleses – justamente na época em que Vargas flertava com a Alemanha e o nazifascismo, o escritor investe contra a tirania e a figura de um “Ditador Total”, numa clara alusão a Getúlio e ao Estado Novo.

1941 – Seus bens resumem-se nos livros publicados a partir de 1918.

Monteiro Lobato é preso em 20 de março, por escrever para Getúlio Vargas uma carta sobre o petróleo no Brasil. As primeiras informações sobre o porquê da prisão declaravam que o autor fez um pedido de passaporte para a Argentina e a polícia de São Paulo percebeu nisto uma possibilidade de fuga do escritor, visto que havia um processo no Tribunal de Segurança contra Lobato.

Sua saúde não anda muito bem após a prisão; e seu filho Edgard também não estava bem.

É julgado em 8 de abril. Sua defesa é feita por Hilário Freire e Medrado Dias que apresenta o processo como algo simples: “Trata-se de uma carta particular, que o autor não divulgou, nem autorizou o destinatário (Getúlio Vargas) ou outrem a divulgar, e que portanto não produz injúria. Revela ainda notar que o convívio mental entre o autor da carta e o seu destinatário, vinha de longe: há mais de 10 anos que Monteiro Lobato dirige cartas ao Dr. Getúlio Vargas”. Sobre o passaporte para a Argentina, a defesa alega que Monteiro Lobato, muito antes da denúncia, requerera passaporte a fim de cumprir contrato comercial com uma empresa editorial argentina, com a qual convencionara a tradução e edição de suas obras infantis. O resultado foi favorável à defesa, alegando que o autor da carta não permitiu a divulgação; faltava nesta o material da injúria; o autor pensava agir na defesa do interesse público, o que o Instituto de Censura Pública aceita neste caso.

Antes de ser preso, Monteiro Lobato aceitara um pedido da rádio B.B.C. da Inglaterra para fazer alguns comentários (a entrevista está transcrita no volume “Prefácios e Entrevistas” sob o título de “Inglaterra e Brasil”). A entrevista foi irradiada em Português, Italiano, Francês, Inglês, Alemão e outros idiomas. Começa com o poema “If” de Kipling, que descreve a fibra do povo inglês. “Em seguida, Lobato demonstra a grande simpatia do povo brasileiro pela Inglaterra, único país que sempre confiou em nosso futuro, emprestando-nos capitais, ou investindo-os no Brasil sob diversas formas. Depois fala do nosso regime político imperial, quando fizeram época estadistas de pulso, regime esse que era uma cópia do inglês. Descreve a seguir a curva clássica do despotismo sul-americano, o advento da República, a progressiva restrição da liberdade individual, fazendo ver que, se tudo havíamos perdido, restava-nos a admiração pela Inglaterra. Concluía descrevendo o regime totalitário que não passava, para ele, da ressurreição do despotismo vestido à moderna”. Muitos confirmavam que o processo contra Lobato não tinha origem na carta sobre o petróleo para o Presidente, mas sim nesta entrevista para a B.B.C. Desejavam castigar, isto sim, o democrata, o inimigo do regime, o homem que falara na B.B.C.

No primeiro julgamento do Tribunal de Segurança, é absolvido. Mas, no julgamento com o tribunal pleno, é condenado a seis meses de prisão. Lobato contribuiu para tal sentença visto que logo ao receber a notícia do primeiro resultado, que provavelmente seria confirmada no segundo, prepara duas inoportunas e esperadas “bombas”. Escreve a seguinte carta ao general Horta Barbosa, DD. Comandante do Conselho Nacional do Petróleo: “É profundamente reconhecido que venho agradecer a V. Excia. O grande presente que me fez, por intermédio do augusto Tribunal de Segurança, de una tantos deliciosos e inesquecíveis dias passados na Casa de Detenção desta cidade. Sempre havia sonhado com uma reclusão desta ordem, durante a qual eu ficasse forçadamente a sós comigo mesmo e pudesse meditar sobre o livro de Walter Pitkin (A short introduction to the History of Human Stupidity). Lá fora, o tumulto humano e mil distrações sempre me iam protelando a realização desse sonho; e eu já não tinha esperança de nada, quando fui surpreendido pela denúncia do Conselho do petróleo ao Tribunal de Segurança e logo em seguida preso preventivamente (…)”.

Perto do aniversário de Getúlio Vargas, apenas cinco dias após a primeira carta, escreve novamente ao presidente, pois quer oferecer um presente que nada mais é que uma ideia: a criação por parte do governo de uma Cia. Nacional de Petróleo.

A segunda bomba foi enviada para Getúlio Vargas: “Atirei no petróleo e acertei na cadeia, o que prova bem má pontaria. Estou porém radiante visto que, a sentença do juiz Maynard fez com o general o que eu fiz ontem com uma pulga: enrolou-o bem enroladinho entre as pontas dos dedos. (…)”. Escreve sobre os tribunais, política e petróleo e conclui: “o verdadeiro amigo dum chefe de Estado não é o que anda com retratinhos dele na lapela, mas sim o que desassombradamente o adverte dos crimes cometidos em seu nome. (…) Mais uma vez os meus agradecimentos, Sr. Dr. Getúlio, e sinceros votos para menos retratos nas paredes e mais coragem no coração dos que lhe escrevem”. Assina como o “impenitentemente” Monteiro Lobato e pede: “Pelo amor de Deus, não mande esta carta ao Conselho do Petróleo”.

Quando recebe a notícia favorável sobre o seu primeiro julgamento (no Tribunal de Segurança os casos entravam em dois julgamentos: o primeiro por um júri singular e o segundo pelo tribunal em conjunto), está envolvido com as notícias da guerra sobre a vitória dos alemães sobre os ingleses. Quando sai o resultado do Tribunal Pleno, condenando-o, Lobato está tão feliz com a derrota dos alemães “que não deu tento na notícia da sentença do tribunal pleno”.

Como é condenado a seis meses de prisão, recebe a visita de vários amigos, mas recebe também correspondência de estranhos, de admiradores anônimos, leitores e crentes no petróleo brasileiro.

O assunto religião o preocupa na prisão. Tinha como modelo Voltaire. Concordava com Spencer, que definira a lei da evolução como uma “complexidade”, uma crescente heterogenização de estruturas e funcionamentos, tudo alheio às ideias de Bem e Mal, que são relativas a despeito de todos os esforços escolásticos para que sejam absolutas. Para Lobato, “Há fenômenos, causas e efeitos, radículas condicionais e condicionadas; mas a finalidade, desígnio, é coisa que cai no “Incognoscível”, de Spencer (…)”. Faz a leitura do livro “Imitação de Cristo” e acha-o deprimente. Quando recebe uma carta que procura convertê-lo à doutrina de Mary Baker Eddy, responde utilizando-se das ideias de Lavoisier: “Se nada se cria, não houve criação, o Universo sempre existiu. E se não houve criação, não houve Criador com C maiúsculo – puro antropomorfismo.”.

Escreve para sua mulher sobre o quanto ele a ama e sobre a prisão, após três dias de sofrimento por não saber o que acontece no mundo e, principalmente, por não ter como escrever. Ao receber roupas e um lápis, escreve para Dona Pureza: “Purezinha, só contarei o que é a vida em prisão. É a gente sozinho com o pensamento e nunca o pensamento trabalha tanto. (…) Estou preso há quase três dias e já me parecem 3 séculos. As horas têm 60 minutos. As noites não têm fim. Sou obrigado a não fazer nada de nada. Não há o que ler – nem jornais. E a incomunicabilidade em que estou agrava tudo, porque me isola completamente do mundo exterior. Não posso falar com ninguém, nem comunicar-me com ninguém. (…) Incomunicável! Agora compreendo o horror desta palavra.”

Lobato revela que, com a censura, nada que fale ou escreva sobre o petróleo na prisão para os inúmeros amigos que passam a visitá-lo será publicado, “mas o essencial, raciocina, não é que o ponham em pedestais, e sim que agitem o problema, que o comentem.”. Escreve a Benjamim de Garay: “Estou muito bem, alegre e satisfeito, pois isto só serve para pôr em foco a causa do petróleo”; e ainda a Geraldo Serra: “Se alguém lamentar a minha sorte, diga-lhe que não seja besta. Estou como queria, colhendo o que plantei. A causa do petróleo ganha muito mais com a minha detenção do que com o comodismo palrador aí do escritório”.

No terceiro mês de prisão, começa a se aborrecer. Continua bombardeando por meio dos amigos o Conselho de Petróleo e o Estado Novo. Mas se sente decepcionado pois percebe que a causa do petróleo não estava ganhando nada com a sua prisão, visto que a imprensa censurada e o DIP atuando com força, as suas ideias não tinham muita difusão. Mas não deixa transparecer aos amigos a sua angústia. A prisão o impede de “ser livre como um selvagem”.

Após noventa dias de prisão, o presidente assina a ordem de liberdade do autor e os jornais são proibidos de fazer referências ao caso. Ao sair, “não tem ânimo para escrever novas histórias infantis, apesar das ideias magníficas que lhe ocorrem. Nem uma ligeira estadia em Taubaté – depois de 25 anos de ausência – lhe traz alegria. Continua a traduzir porque não tem outro remédio. E faz, com grande habilidade, pequenas historietas de propaganda comercial.” Sobre a relação de Monteiro Lobato com propagandas e anúncios, Cavalheiro explica que este seu trabalho começou com “Jeca Tatuzinho” em propaganda de dois preparados farmacêuticos, o “Biotônico” e a “Ankilostomina Fontoura”. Teve a tiragem de 22 milhões. E, além disso, todos os catálogos, folhetos, prospectos e anúncios tanto da editora como das empresas de ferro e petróleo, são de sua autoria. Para a linha Fontoura, para a máquina de escrever Royal e para o Café Jardim, Lobato escreveu os slogans, revisou os textos e criou histórias. Para a casa Lotérica que possuiu, “compôs deliciosos anúncios, que, na época, causaram grande sucesso”.

Recebe a notícia da “Cia Editora Nacional” que suas tiragens já ultrapassaram o milhão de exemplares.

Dia a dia de Lobato: levanta cedo e traduz durante toda a manhã (oito horas sem interrupções). À tarde, comparece na Civilização Brasileira em que atende os amigos, recebe as encomendas e cartas dos admiradores. Passa algumas horas na Cia. Editora Nacional e, ao entardecer, segue para uma das inúmeras salas de cinema do centro. À noite, faz visitas a qualquer um dos inumeráveis amigos.

O desejo de ir à Argentina, com grandes possibilidades editoriais propostas por Benjamim de Garay, continua perseguindo Monteiro Lobato. Há pedidos para os livros infantis de Lobato que somente o autor poderá fazer as adaptações necessárias. Com a prisão, a ida para a Argentina é adiada.

No final deste ano, Lobato sente uma enorme satisfação com o filme de Walt Disney, “Fantasia”: “Fantasia deixou-me estarrecido. É a expressão. Estarrecido. E embaraçado para definir. Tudo tão novo, tudo tão inédito, que o vocabulário crítico usual mostra-se impotente. Disney é um tipo novo de gênio e sua arte é uma arte total e absolutamente nova, jamais prevista nem pelas mais delirantes imaginações. Até o aparecimento de Disney, o cinema não passava duma conjugação do teatro com a fotografia. Era uma representação teatral fotografada em todos os seus movimentos, cores e sons. Disney criou a grande coisa nova: a conjugação da fotografia com a imaginação. O desejo genial de Disney permite que todas as criações da imaginação possam ser fotografadas e projetadas com a riqueza dos sonhos”. Sempre suspirou por um Disney “que fixasse as personagens do Sítio do Picapau Amarelo”.

Traduções: “Kim” de Kipling, “O livro de Jangal”; e “rumina longamente seus próprios pensamentos”. Cavalheiro revela que estas duas traduções não foram apenas traduções comerciais, “mas trabalho de artista, de admirador incondicional do original” e julga-se pago por todas as outras traduções que fora obrigado a traduzir e do tão ingrato ofício.

Novamente, Godofredo Rangel insiste com Lobato a publicação da correspondência entre os dois. Lobato concorda que “a nossa troca de cartas foi uma coisa linda”.

Revolta-se com a Academia Brasileira de Letras, pois esta elege em agosto Getúlio Vargas como membro, na vaga de Alcântara Machado. “Lobato desabafa-se em explosões impublicáveis”. E “sempre considerou essa eleição uma vergonha que atingia em cheio todos os intelectuais brasileiros”.

No final do ano, ainda trabalha na tradução do livro “Engines of Democracy”, de Roger Burlingame.

1942 – Se diverte contando aos amigos o enredo e as principais peraltices de Emília em seu novo livro infantil “A Chave do Tamanho”.

Escreve o artigo “A Moeda Regressiva”, teoria econômica apresentada como sugestão. O “El Economista” do México transcreve o artigo e, em suas colunas, surgem várias discussões sobre o assunto.

Concretização de um novo livro infantil: “A Chave do Tamanho”, que, inicialmente, iria chamá-lo de “A Revolução de Emília”.

1943 – Morre seu filho Edgard no dia 13 de fevereiro.

Sobre a morte do seu filho Edgard escreve que não teve sorte com seus filhos varões, visto que ambos se foram muito cedo. Para Godofredo Rangel, escreve: “Impossível filhos melhores que os meus, e talvez por isso foram chamados tão cedo”.

Recomeça a analisar o Espiritismo. Porém, pela saudade dos filhos ou por não esperar mais nada do mundo, começa a frequentar sessões. Suas conversas, segundo Cavalheiro, sempre falavam sobre a morte ou em coisas do Além.

Lamenta ter vendido a fazenda, porque lá não havia rádio e repórteres querendo saber o que ele pensa sobre determinado assunto.

Traduções de livros que abordam o Espiritismo: “Raymond” e “Rumo às Estrelas”. Em março, recebe a notícia da Cia. Editora Nacional que as suas tiragens já ultrapassaram o milhão e quinhentos mil exemplares. Mais de dois terços são de literatura infantil.

Autores que foram traduzidos por Monteiro Lobato ao longo da vida: Kipling, Jack London, Mark Twain, Lin Yutang, Herman Melville, Conan Doyle, Saint-Exupéry, André Maurois, Ilya Erenbourgh, Richard Wright, Ernest Hemingway, Will Durant, Bertrand Russel, Sholem Asch, Maurice Maeterlink, Thornton Wilder, Wells, e dezenas de outros. “Pode-se ainda afirmar ter sido Monterio Lobato o primeiro escritor brasileiro de nomeada a reabilitar esse gênero de trabalho intelectual, até então acobertado pelo anonimato, ou discretamente velado por pudicas iniciais”. E “Monteiro Lobato deu novo prestígio à tradução, erguendo-a, como atividade intelectual, ao mesmo nível da produção original”.

Godofredo Rangel sugere novamente a Monteiro Lobato a publicação da correspondência ininterrupta de quase 40 anos entre os dois. Lobato percebe na leitura que existe uma unidade, e que “constituem o autêntico romance mental de duas formações literárias (…)”; um retrato em fragmentos de duas vidas, de duas atitudes diante do mundo – e o panorama de toda uma época”.

1944 – No final deste ano, se despede, com pesar, do oficio de tradutor. Escreve à Rangel: “Volte à sua tradução. Goze dessa delícia de que desassisadamente eu vou me privar. Foi a tradução que me salvou depois do meu desastre no petróleo. Em vez de recorrer ao suicídio e ao álcool ou a qualquer estupefaciente, recorri ao vício de traduzir, e traduzi tão brutalmente, que me acusaram lá fora de apenas assinar as traduções. Mas era o meio de me salvar. Hoje me sinto perfeitamente curado – e por isso abandono o remédio”.

Decide pela publicação da sua correspondência com Godofredo Rangel.

Enquanto revê as provas de “A Barca de Gleyre”, tenta convencer o amigo de publicar as suas cartas também, “atira-se com juvenil entusiasmo à fatura de “Os Doze Trabalhos de Hércules”. Segundo Cavalheiro, “Monteiro Lobato é assim mesmo: quando se entusiasma por qualquer ideia, a ela se atira de corpo e alma, com uma capacidade de produção realmente extraordinária (…). O enredo é arquitetado em longas e solitárias caminhadas. Aos amigos mais chegados reconstitui a história, andando de lá para cá, inventando novas cenas, intercalando frases e tiradas de efeito.” Segundo o próprio Lobato: “Não arquiteto a frase: despejo-a sobre o papel no jeito, no tom, no rebarbativo, no elance com que me acode à pena”.

“A Barca de Gleyre” é o último livro de Lobato publicado na Cia. Editora Nacional. Estivera junto com Otales Marcondes Ferreira na Editora desde 1918. Mas abandona a casa que passara boa parte de sua vida para, em companhia de Artur Neves e Caio Prado Júnior, fundar a Brasiliense, que cuidará com prioridade os seus livros. Como não tem coragem de falar pessoalmente com seu amigo a sua decisão, escreve-lhe uma carta: “O desenvolvimento da Editora e a expansão do lado didático faz naturalmente que ela vá cada vez mais perdendo o interesse pelos livros de literatura geral, cujas edições são muitíssimo menores que as dos livros escolares. Nada mais lógico e natural; mas como isso me afeta os interesses, venho te propor uma modificação na nossa entente de tantos anos: você escolhe os livros que desejar e compromete-se a reeditá-los sempre, de modo que não haja solução de continuidade na oferta ao público; os outros livros eu os distribuo pela Globo, José Olímpio e Brasiliense, sob condições que eu determinarei. Desse modo tudo fica bem resolvido, a contento das partes.” Lobato se entusiasma com as possibilidades financeiras que os livros podem lhe dar neste momento.

Sobre a publicação em vida da correspondência: “Há que essas cartas tinham que vir a público um dia, e sairiam cheias de coisas que lá no meu estado gasoso eu havia de arrenegar; achei, pois, que o melhor era infringir as regras e desses modo preparar para a paz minha vida no Além.”

Para Cavalheiro, esta correspondência “constitui caso único na história literária do Brasil, e talvez do mundo. (…) Uma correspondência entre dois amigos, praticamente em torno de um mesmo e único assunto, que tenha durado, ininterruptamente, quarenta e tantos anos, parece-nos coisa inédita. E se o fato em si é original, as consequências são originalíssimas. Pois aqui estão as ‘memórias’ de um homem, escritas sem ele saber, compostas sem planos prévios, realizadas com um máximo de fidelidade e isenção de ânimo. (…) É de Emília, a grande personagem dos livros infantis, estes conceitos: ‘Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e seu também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor.’ E memórias para Lobato, não significam a vida de um sujeito como ele a teve, mas como a queira ter. E apresenta a correspondência como “espelho fiel de uma amizade rara, original e comovente, reflete a formação do espírito lobateano, suas inquietações espirituais, suas preocupações artísticas e financeiras, suas descobertas nos campos da estilística ou da filosofia, sua posição, em suma, diante da arte e da vida”.

Cavalheiro questiona como dois homens tão diferentes, com personalidades distintas, se corresponderam por tanto tempo. A resposta é que “ambos eram visceralmente literatos”. Na “Barca de Gleyre”, encontramos um diálogo literário, impressões de leituras, discussões em torno de obras, estilos, tendências as mais variadas. E “o que se conclui de A Barca de Gleyre é que não houve entre nós ninguém mais empreendedor, mais cheio de iniciativas e idealizações”.

Lobato sobre a sua recusa de ser membro da Academia Brasileira de Letras: “Cansei-me de declarar o meu desprezo pela Academia Brasileira de Letras, em entrevistas, artigos e cartas. Não me acreditaram. Pensaram que era despeito e que, em havendo possibilidades de entrar lá, eu engoliria o que disse e me atiraria ao bofe…” (carta à Jaime Adour da Câmara); “Minha ideia é que todas as distinções honoríficas neste mundo são latas vazias. A láurea acadêmica é também uma lata com que os homens se enfeitam para ficarem diferentes dos outros – dos tristes mortais que passam a vida inteira sem nem sequer uma latinha de massa de tomate no pescoço! Lata, tudo é lata nesta vida. Tudo é lata vazia, umas maiores e outras menores, como as de querosene, outras humildes, como as de sardinhas”; “É apenas coerência, lealdade para comigo mesmo e para os próprios signatários; reconhecimento público de que rebelde nasci e rebelde pretendo morrer. Pouco social que sou, a simples ideia de me ter feito acadêmico por agência minha me desassossegaria, me perturbaria o doce nirvanismo ledo e cego em que caí e me é o clima favorável à idade”.

Direitos Reservados 2013 consultar créditos.

abr. 18 2013 Staff Categoria: Efemérides

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Museu Monteiro Lobato