A herança do avô (1911-1916)

1911 – “A morte do Visconde de Tremembé ocasiona profundas transformações na vida do neto, o Promotor Público de Areias, José Bento Monteiro Lobato. Agora ele é proprietário de coisas – terras, casas, fazendas… A literatura ficará para depois. É pelo menos o que pensa, enquanto como inventariante cuida do espólio.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 149)

“… a Monteiro Lobato cabe, como herança, a Fazenda Buquira, uma enorme propriedade, abrangendo 1515 alqueires de terras, que acrescidas de outras de espólio paterno, perfazem cerca de dois mil alqueires, um fazendão mesmo naqueles tempos.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 150)

“Monteiro Lobato toma a sério as novas funções, procurando conciliar duas personalidades distintas e, num certo sentido, antagônicas: o lavrador e o literato.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 151)

“Instalado a partir de 1911 na sua fazenda, o proprietário Lobato empenha-se em torná-la rendosa, através de projetos que incluem a modernização da agricultura, a importação de cabras, galinhas e porcos, o recurso a especialistas, o cruzamento para melhoria da criação. Abre, além disso, novas frentes na lavoura, planta café, milho e feijão.” (Marisa Lajolo. Monteiro Lobato: a Modernidade do Contra. São Paulo, Brasiliense, 1985. p: 27)

Monteiro Lobato continua a ler e escrever mas não pensa “em leitores, público, livros ou cartaz, mas mantém com Godofredo Rangel uma correspondência que gira, toda ela, em torno de obras, autores, estilos”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 154)

1912 – Insatisfeito com a política econômica, que “ao menos na ótica dos fazendeiros paulistas” não favorecia a lavoura, Lobato “lidera a oposição municipal na vila Buquira.” (Marisa Lajolo. Monteiro Lobato: a Modernidade do Contra. São Paulo, Brasiliense, 1985. p: 27)

Segundo Edgar Cavalheiro, a política municipal da vila Buquira logo enoja Lobato: “Não nascera para suportar a caceteação dos correligionários. Quando mais o julgavam metido na luta, escrevia à irmã: “Já ontem aturei uma visita de três horas dum eleitor. Enquanto ele comentava a minha entrada na política, eu cá comigo ia estudando meios de sair dela, e ver-me livre de visitas semelhantes.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 156)

“… ele sente-se frustrado, inquieto, nem fazendeiro, nem escritor, nenhum dos sonhos realizados”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 173)

“Só ano e pouco depois de se tornar fazendeiro é que passa a atentar para os homens que o rodeiam. Até então se preocupara mais com a natureza e os animais. Vítima no entanto, como tantos outros lavradores, do instinto depredador do colono ou agregado, medita sobre o assunto, e de passagem anota a possibilidade de uma obra de caráter profundamente nacional tendo como centro, ou personagem principal, o caboclo, espécie de piolho da terra. Por algum tempo rumina a teoria, e em cartas e anotações o escritor que há nele sente que algo está ‘gestando’, coisa ainda informe, inconsistente, de linhas não muito nítidas. Em fevereiro de 1912 fala do assunto como de tema já abordado anteriormente. “Já te expus, pergunta a Rangel, a minha teoria do caboclo como piolho da terra, ‘porrigo decalvans’ das terras virgens?” A ideia inicial ameaça, meses depois transformar-se numa série de contos. Mas tudo ainda muito vago muito nebuloso: “Vou ver se consigo escrever um conto, ‘o porrigo decalvans’, em que considerarei o caboclo um piolho da terra, uma praga da terra. Mas não garanto coisa nenhuma”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 172-173)

1913 – É publicado, no Correio Paulistano, o primeiro artigo que Monteiro Lobato assina com o próprio nome, intitulado “Uma Visita a Guiomar Novais”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 161)

1914 – “A Grande Guerra tornava a vida muito difícil, não só pelas restrições de crédito, como pela irregularidade das exportações”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 157)

“Afunda-se em Balzac, que o assombra, e lê inúmeros autores das mais diversas tendências. E quando Rangel insinua ter ele fracassado para as letras, responde: “julgas-me então um raté pelo simples fato de não haverá nas livrarias uma brochura amarela com meu nome na capa? Um rebelde nunca é raté.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 158).

“Na Fazenda do Paraíso, um dia, conheci nhá Gertrude Reboque, uma velhinha que morava num rancho a beira da estrada. Pois a nhá Gertrude vivia falando num neto que significava parar ela o maior homem do mundo. Votava-me admiração incondicional. O Jeca – assim se chamava o menino portento – era um colosso aos seus olhos de avó. E de tanto falar no Jeca nós quisemos conhecê-lo. Devia ser alguma coisa de extraordinário, o tal neto de nhá Gertrude. E pedimos-lhe que aparecesse com o Jeca na casa da fazenda. Um dia o Jeca apareceu. Que decepção! Um bichinho feio, magruço, barrigudo, arisco, desconfiado, sem jeito de gente. Algo horrível. Por isso mesmo seu nome ficou na minha cabeça. Anos mais tarde, precisando dar nome a um personagem caboclo, logo me veio à tona a figura desajeitada do Jeca – o mais jeca de todos os jecas que tenho visto. Quanto ao sobrenome, o Tatu me ocorreu mais tarde. Há princípio chamei-lhe Jeca Peroba. Não soou bem. Mas lembrei-me de que poucos minutos antes um capataz da fazenda – o Chico – me falara nuns Tatus que andavam estragando uma roça de milho. Adotei-lhe o Tatu. Curioso: o Jeca, eu o conhecera de vinte anos; dos tatus só meia hora antes o capataz me havia falado. Dessa mistura, através dos anos, foi que surgiu o Jeca Tatu.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol. 2, p: 706)

“Depois de tantos anos estaria mais ou menos habituado aos altos e baixos do negócio. O que, realmente, o mantém em permanente desassossego, é a incoercível vocação literária impossível de frutificar nos grotões de Buquira.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 158)

“Em Novembro, Monteiro Lobato era escritor feito, embora praticamente inédito, pois quase tudo quanto tinha produzido até então fora divulgado com pseudônimos”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 161)

Monteiro Lobato possui projetos literários que giram em torno do símbolo do “piolho da terra”: “‘Não sei como vai ser essa obra. Talvez romance. Talvez uma série de contos com uma ideia central’. A imagem do piolho torna-se obcecante: ‘Nessa obra aparecerá o caboclo com piolho da serra, tão espontâneo, tão bem adaptado como nas galinhas o piolho-de-galinha, ou como no pombo o piolho-de-pombo, ou mesmo no besouro o piolho-de-besouro – espécies incapazes de viver em outros meios. O caboclo piolho-da-serra também é incapaz de outras piolhagens que não a da serra’. Quando escreverá a obra não sabe e nem poderá prever. ‘Já te escrevi sobre isto; e se a ideia volta e insiste, é que de fato está se gestando, bem vivinha e será parida no tempo próprio.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 174)

Monteiro Lobato escreve um artigo intitulado “Velha Praga” para a seção de “Queixas e Reclamações” do Jornal O Estado de São Paulo. “A direção achou-a tão bem feita, que deu-lhe inesperado destaque no corpo da folha, então a mais importante do Estado”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, pp: 161-162)

Neste ano, Lobato escrevia a Rangel: “‘Um feto que já me dá pontapés no útero é a simbiose do caboclo e da terra, o caboclo considerado o mata-pau da terra, constritor parasitário, aliado do sapê e da samambaia, um homem baldio, inadaptável à civilização…’ É o Jeca que começa a ganhar contornos, ele já o tem delineado, quase pronto: ‘Começo a acompanhar o piolho desde o estado de lêndea, no útero de uma cabocla suja fora e inçada de superstições por dentro. Nasce por mãos de uma negra parteira, senhora de rezas mágicas de macumba. Cresce no chão batido das choças e do terreiro, entre galinhas, leitões e cachorros, com uma eterna lombriga de ranho pendurada pelo nariz. Vê-lo virar menino, tomar o pito e a faca de ponta, impregnar-se do vocabulário e da “sabedoria” paterna, provar a primeira pinga, queimar o primeiro mato, matar com a pica-pau a primeira rolinha, casar e passar a piolhar a serra nas redondezas do sítio onde nasceu até que a morte o recolha’.

A ideia está cristalizada, nada mais lhe resta senão passá-la para o papel, dar-lhe formas e contornos definidos, e com um título bem sugestivo enviá-la para o jornal. Urupês é o que, com rara felicidade, lhe ocorre. O caboclo é o urupê de pau podre que vegeta no sombrio da mata.” No final do ano, tem o projeto de escrever um livro tendo o Jeca como tema. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 177)

Segundo Edgar Cavalheiro, para Monteiro Lobato, o “Jeca Tatu era a mais pura expressão de todas as qualidades negativas do ser humano. Dele nada se salvava. Nem o corpo, nem o espírito.” (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.1, p: 181)

Quando Godofredo Rangel parece cansar-se da correspondência, Lobato se desespera, pois, sem as cartas, sua vida se tornaria sem sentido: “Sigamos os dois, como até aqui, peripateticamente, a debater frivolidades e a repastar as misteriosas exigências mentais dos nosso eus, apesar das centenas de quilômetros que nos separam”. (Edgar Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. Vol.2, p: 545)

1915 – No meio do ano, Monteiro Lobato passa uma temporada em São Paulo e conhece uma porção de gente, dentre os quais Emílio de Menezes. “Em São Paulo ouve comentários desvanecedores à sua literatura, e acontece a coisa melhor que poderia desejar: o ‘O Estado de São Paulo’ propõe pagar-lhe os artigos a vinte e cinco mil réis. Mas não era tudo: aparecera-lhe também ‘um papudo’, alguém querendo reunir em livro as várias coisas que tem publicado. Tudo isso leva-o a cuidar mais da literatura, e menos da Fazenda”. Procura vender a Fazenda.

São constantes os contatos de Lobato com volumes de diários, cartas e memórias. Escreve à Rangel: “Já notaste como é mais vivo o estilo das cartas, do que o de tudo quanto visa aparecer em livro ou jornal? Acho maravilhoso o prime saut das cartas. Eu, por mim, só lia cartas como as de Casanova”.

1916 – Nasce a terceira filha de Monteiro Lobato. Morre um grande amigo: Ricardo Gonçalves.

É frustrado em seus sonhos que vê chegar 1916: não vendeu a fazenda como desejava; não publicou o livro que sonhara; não escreveu nada que repetisse o êxito de “Velha Praga” e “Urupês”. Apesar disso, está, nos últimos dias do ano, mais otimista: sente-se grávido de uma obra, entra em 1916 refazendo febrilmente vários contos.

Ao reler a correspondência com Rangel, é tomado pela saudade: “Estamos ali inteirinhos, com os sonhos todos e a grande ânsia de criar”. E sobre a publicação revela: “Seria um grotesco supremo, porque cartas só interessam ao público quando são históricas ou quando oriundas de, ou relativas a, grandes personalidades”. Neste ano, ambos “são autores inéditos, ilustres desconhecidos da vida literária”.

Lobato pensou “em vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e Lafontaine”. Segundo ele, “Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo de literatura que nos falta”. Alguns anos depois, chega a traduzir Lafontaine, mas outras atividades o absorvem e não prossegue.

Godofredo Rangel devolve as cartas a Lobato com o intuito que este as leia para uma possível publicação deste excelente material.

Ao reler a correspondência com Rangel, é tomado pela saudade: “Estamos ali inteirinhos, com os sonhos todos e a grande ânsia de criar”. E sobre a publicação revela: “Seria um grotesco supremo, porque cartas só interessam ao público quando são históricas ou quando oriundas de, ou relativas a, grandes personalidades”. Segundo Cavalheiro, neste ano, ambos “são autores inéditos, ilustres desconhecidos da vida literária”.

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abr. 18 2013 Staff Categoria: Efemérides

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Museu Monteiro Lobato